Lei 'trans' avança em Espanha com alertas de falta de "segurança jurídica"
16 de fev. de 2023, 07:39
— Lusa/AO Online
A "lei para a
igualdade real e efetiva das pessoas trans" vai hoje a votação final
global no parlamento espanhol e quando estiver em vigor será possível
mudar de género no registo civil em Espanha, a partir dos 12 anos, sem
parecer médico.Será necessária autorização
de um juiz para os casos entre os 12 e os 14 anos e dos pais ou tutores
legais entre os 14 e os 16 anos, mas para maiores de 16 anos bastará a
própria vontade de quem quiser fazer a alteração de género.Em
todos os casos deixam de ser necessários pareceres médicos e provas de
qualquer tratamento hormonal porque o diploma pretende retirar a carga
de patologia à mudança de género."As
pessoas trans [transexuais] não precisam de tutelas nem de testemunhas
que lhes digam quem são. As pessoas trans são quem são e a nossa
obrigação como Estado é reconhecê-las e proteger os seus direitos",
afirmou a ministra da Igualdade, Irene Montero, num debate no Congresso,
em dezembro passado.A nova legislação
demorou mais de um ano a ser aprovada e pelo caminho dividiu o Partido
Socialista (PSOE), que governa Espanha em coligação com a plataforma de
extrema-esquerda Unidas Podemos, de que faz parte Irene Montero.A
lei contou também com a oposição de associações feministas que, como a
ala crítica do PSOE, consideram que pode prejudicar os avanços
alcançados pelas mulheres na luta pela igualdade de direitos.Para
estes movimentos, ser mulher não é uma identidade subjetiva e o
feminismo é a luta contra a discriminação de uma identidade objetiva,
baseada no género biológico.Entre estas
vozes críticas está a Fundação Mulheres e a Associação de Mulheres
Juristas Themis, cujas dirigentes repetiram esta semana, num encontro
com meios de comunicação social em Madrid, entre eles, a agência Lusa,
que esta legislação não tem "segurança jurídica" e "uma lei não pode ter
tantos buracos".Estas duas associações
são reconhecidas como interlocutoras nos processos legislativos e
habitualmente ouvidas em comissões parlamentares ou através de
pareceres, mas desta vez, disseram as suas presidentes, na elaboração da
"lei trans" espanhola, "o movimento feminista foi muito pouco
consultado".A lei espanhola tem
semelhanças com outras aprovadas em países como a Escócia, também elas
envoltas em polémica e que uma vez em vigor destaparam os "buracos" para
que alertam associações como a Themis ou a Fundação Mulheres.Em
causa estão, por exemplo, situações de homens que mudaram de género
para cumprirem penas de prisão em alas femininas. Mas há também, dizem
estas vozes críticas, a possibilidade que se abre para homens
participarem nas competições desportivas ao lado de mulheres ou de se
apresentarem em concursos que exigem provas físicas para seleção e têm
padrões diferentes estabelecidos para candidatos masculinos e femininos.Estas
associações alertam também para questões na aplicação das leis de
igualdade de género, da violência de género ou das quotas nas leis
eleitorais.A nova lei espanhola elimina,
por outro lado, a "proteção positiva" dos transexuais, cuja situação
passa a entrar no "código de garantias universal", sem reconhecimento da
especificidade da sua condição, ao mesmo tempo que há uma "negação da
disforia de género" ou, pelo menos, de que seja relegada para segundo
plano, defenderam Elena Sevillano, presidente da Fundação Mulheres e
ex-eurodeputada do PSOE, e Angela Alemany, jurista que é presidente da
Associação Themis.A ministra Irene Montero
disse, num debate no Congresso, que "as mulheres trans são mulheres" e
falou em "transfobia" durante o processo de debate da lei.A
nova lei será aprovada pela maioria de esquerda no parlamento espanhol e
tem a oposição dos partidos da direita, que invocaram não ter havido um
processo legislativo suficientemente tranquilo e duradouro para
permitir todos os debates e audições necessários.O
Partido Popular (PP, o maior da oposição) apelou diretamente ao
primeiro-ministro, o socialista Pedro Sánchez, na semana passada, para
adiar a votação final da lei, por não estar bem feita e haver o risco de
se tornar num novo pesadelo para o Governo, como está a acontecer com a
lei que mudou a tipificação dos crimes sexuais, conhecida como "lei do
só sim é sim".Esta lei, em vigor desde
outubro, já levou a que 520 homens vissem reduzidas as penas a que
tinham sido condenados por violação, causando uma polémica que os
analistas consideram ser a maior crise enfrentada pela coligação que
governa Espanha desde 2019.Também neste
caso tinha havido alertas de associações e do PP de que a lei não estava
bem defendida e haveria redução de penas de condenados, um efeito que
não era o pretendido pelo legislador.