Leão XIV avisa que “antes das fronteiras e das instituições estão sempre as pessoas"

Hoje 19:28 — Lusa

Perante cerca de 5000 participantes, o pontífice encorajou-os a entrar em contacto “com aquilo que une, de forma originária, os seres humanos, para além de toda a diversidade, separação ou conflito”.“Podemos identificar-nos uns com os outros, ouvir-nos e tornar-nos amigos, entre pessoas e, por conseguinte, também entre povos. Antes das fronteiras, das definições e das instituições, estão sempre as pessoas”, sublinhou Leão XIV.Neste sentido, recordou que “a paz é guardada e difundida por pessoas que gostam de se reunir e que não temem o diálogo”.Leão XIV advertiu igualmente contra a lógica do confronto e defendeu a misericórdia como resposta ao mal: “seguir Jesus Cristo após as tragédias e os novos começos do século XX implica, de facto, uma consciência lúcida: o mal não se combate com o mal”.Perante o “falso realismo” que, segundo o pontífice, “rearma as mentes, as palavras e as nações”, Leão XIV afirmou que a cultura católica deve opor-lhe “o realismo da misericórdia, segundo o qual não podem existir inimigos e todos, mesmo os adversários, são irmãos e irmãs a quem olhar nos olhos e com quem se encontrar na verdade”.Nesta linha, apelou à purificação dos “pensamentos, interesses, hábitos, relações, projetos, investimentos - cada aspeto da vida –“ contaminados pela “cultura do poder”.“Liberte, pois, a convivência da desconfiança, a cultura da prepotência, a educação da ideologia, o trabalho da idolatria do lucro, e a tecnologia e as finanças dos negócios da morte”, acrescentou.E apelou: “começando pelas organizações que criámos e nas quais trabalhamos, vamos desmascarar as relações injustas de poder, que estão na origem da pobreza e das desigualdades, da guerra e das catástrofes ambientais”.Apelou também a “desarmar” o desenvolvimento tecnológico “quando este se torna omnipresente e destrutivo” e encorajou a não permitir que o cansaço e o desespero marquem o futuro.“Que não haja apenas quem atice o fogo do cansaço e do desespero; que haja também quem reavive os sonhos e as visões!”, exortou.Para Leão XIV, ambos os caminhos são incompatíveis: “um aproveita-se da divisão, da alienação e do desespero, enquanto o outro está ao serviço do reino de Deus e da sua justiça”.Antes de proferir o seu discurso, Leão XIV percorreu alguns dos pavilhões da Feira de Rimini, onde visitou as exposições dedicadas a Santo Agostinho e a Leon Harmel, e cumprimentou os organizadores e participantes.O Encontro pela Amizade entre os Povos, cuja 47.ª edição se realiza de 21 a 26 de agosto, é um encontro internacional de caráter cultural, político e religioso organizado pela Comunhão e Libertação.A visita de Leão XIV a Rimini ocorre após a sua deslocação, pela manhã, à República de São Marino, onde apelou a que se evitem projetos políticos submetidos a “ídolos e ao poder” e propôs fazer de São Marino um “laboratório” de boa política centrado no cuidado da pessoa.O dia do pontífice continuará na cidade italiana com um encontro na catedral com doentes, pessoas com deficiência e pobres assistidos pela Cáritas e, posteriormente, celebrará a eucaristia na zona do porto, antes de regressar ao Vaticano.