Leão XIV apela à paz no noroeste anglófono dos Camarões
Hoje 14:49
— Lusa/AO Online
Chegado num papamóvel com vidros
blindados e sob escolta militar, Leão XIV abençoou a multidão que o
recebeu num ambiente de alegria, entre cânticos, buzinas, apitos,
percussão, bandeiras dos Camarões e do Vaticano e trajes tradicionais
coloridos com a sua efígie."Vamos servir a
paz juntos", apelou o líder da Igreja Católica na catedral de São José
de Bamenda, "terra ensanguentada, mas fértil, terra ultrajada, mas rica
em vegetação e generosa em frutos"."Aqueles
que despojam a vossa terra de recursos investem geralmente grande parte
dos lucros em armas, numa espiral de morte sem fim", denunciou o Papa
perante os fiéis."Fingem fechar os olhos
ao facto de que são necessários milhares de milhões de dólares para
matar e devastar, mas que não se encontram os recursos necessários para
curar, educar e reconstruir", afirmou Leão XIV.Ainda
na Catedral, o Papa elogiou o movimento pela paz e manifestou-se contra
permitir que a religião se intrometa nos conflitos."Bem-aventurados os pacificadores!", disse.Na
véspera, o Papa apelou a que se rompesse as correntes da corrupção, ao
respeito pelos direitos humanos e ao Estado de direito.Desde esta manhã, o dispositivo de segurança foi reforçado nas principais artérias da cidade.Na
sequência de manifestações pacíficas violentamente reprimidas, surgiu
no final de 2016 um conflito que opõe o Governo de Yaoundé aos
independentistas da minoria anglófona do país, que proclamaram a
República da Ambazonia.Tanto os separatistas como as forças de segurança são regularmente acusados de abusos. Presos
num impasse, principalmente na região noroeste, onde os grupos armados
são mais ativos, os civis tornaram-se alvo de assassínios, extorsões e
sequestros para obtenção de resgate. Pelo menos 6.000 morreram desde 2016, segundo a ONU.Na
segunda-feira, alguns grupos armados anunciaram uma trégua de três dias
nas duas regiões anglófonas, onde vive cerca de 20% da população, para
permitir receber o Papa em segurança.Os separatistas também depositam grandes esperanças nesta visita. O
grupo Unity Warriors of Ambazonia explicou à agência de notícias
France-Presse (AFP) que espera que o Papa exorte o Governo a retomar as
negociações "onde as raízes do conflito possam ser discutidas".Neste
país da África Central, onde cerca de 37% dos cerca de 30 milhões de
habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e
gere uma vasta rede de hospitais, escolas e obras de caridade — uma
alavanca de influência que a Santa Sé deseja consolidar."Falámos
com ambas as partes e pensamos que chegou o momento de elas agirem e
encetarem esse diálogo", declarou Andrew Fuanya Nkea, arcebispo de
Bamenda, conhecido por ser próximo de Leão XIV.Os
separatistas solicitaram, nomeadamente através do seu advogado, "o
estabelecimento de um diálogo sob a égide do Vaticano que permita
debater as causas profundas do conflito, com a participação da ONU,
única via credível para a paz".Devido à
violência associada a este conflito, mais de 330.000 pessoas foram
deslocadas no interior dos Camarões em 2025 e mais de 100.000 outras
refugiaram-se na vizinha Nigéria, segundo a ONU.Antes
de chegar aos Camarões, o Papa norte-americano realizou uma visita
histórica à Argélia, parcialmente ofuscada por um duplo atentado suicida
a cerca de 40 quilómetros de Argel e pelo Presidente norte-americano,
Donald Trump, que o acusou, nomeadamente, de ser "um zero na política
externa". No sábado, o líder dos 1,4 mil
milhões de católicos segue para Angola, onde estará até dia 21, para a
terceira etapa da sua viagem, que termina na próxima semana, dia 23 de
abril, na Guiné Equatorial.