Lavrov reconhece esforços de Guterres para facilitar exportações russas mas "sem resultados"
26 de abr. de 2023, 08:54
— Lusa/AO Online
"Não
posso dizer que a Organização das Nações Unidas (ONU) não tenha feito
esforços na direção certa. Pelo contrário, o secretário-geral, António
Guterres, [...] tem defendido isso. Tem tentado chegar a um acordo com
os países que anunciaram sanções ilegítimas contra a Federação Russa.
Mas praticamente sem resultados", disse Lavrov aos jornalistas, em Nova
Iorque.O ministro das Relações Exteriores
da Rússia concedeu hoje uma longa conferência de imprensa na sede das
Nações Unidas, onde se encontra por ocasião da presidência rotativa
mensal russa do Conselho de Segurança.Lavrov
abordou as negociações e esforços de Guterres em torno da extensão do
Acordo dos Cereais do Mar Negro, uma iniciativa firmada no verão passado
entre a Rússia e Ucrânia, com a mediação da ONU e da Turquia, que visou
o escoamento dos cereais e alimentos bloqueados nos portos ucranianos
desde a invasão levada a cabo pela Rússia, em fevereiro de 2022.Paralelamente
ao acordo sobre cereais, foi também firmado um memorando para facilitar
as exportações russas de alimentos e fertilizantes, mas que Moscovo diz
não estar a ser cumprido.A Rússia admite
mesmo não prolongar o acordo - cujo prazo termina em 18 de maio -, caso
não se verifiquem progressos no cumprimento desses compromissos,
incluindo o fim dos obstáculos às exportações agrícolas e a reconexão ao
sistema bancário internacional Swift do Banco Agrícola Russo
Rosselkhozbank.Na visão de Lavrov, os países ocidentais não pretendem conectar o Banco Rosselkhozbank de volta ao Swift."O
Rosselkhozbank, o principal credor que atende as nossas exportações
agrícolas, foi cortado do sistema Swift e ninguém vai conectá-lo de
volta", disse.De acordo com Lavrov,
Guterres recorreu a três bancos norte-americanos para pedir que
substituam o Swift e ajudassem o Banco Agrícola Russo a atender às
transações de exportação.O ministro
defendeu a necessidade de o Ocidente voltar a ligar o banco russo ao
Swift se realmente quiser resolver a questão da falta de alimentos no
mundo.Ainda sobre os esforços de Guterres,
Sergei Lavrov disse conhecer o ex-primeiro-ministro português "muito
bem" e assegurou que confia nos seus "esforços honestos e persistentes"
para "persuadir aqueles que impuseram sanções a abrir uma exceção, pelo
menos para a exportação agrícola de cereais e exportação e
fertilizantes". "Esses esforços,
infelizmente, não foram produtivos", disse, reforçando que o cenário de
impasse face à continuidade do Acordo dos Cereais.Guterres
entregou na segunda-feira a Lavrov uma carta dirigida ao Presidente da
Rússia, Vladimir Putin, com uma proposta para "melhorar e prolongar" o
Acordo dos Cereais do Mar Negro.Numa
reunião entre ambos na sede da ONU, o secretário-geral expressou
preocupação com os recentes obstáculos encontrados pelo Centro de
Coordenação Conjunta - grupo que facilita a implementação do acordo dos
cereais - nas suas operações diárias.Nesse
sentido, Guterres endereçou uma carta a Vladimir Putin, "delineando uma
proposta de roteiro a seguir visando a melhoria, extensão e expansão do
Acordo, levando em consideração as posições recentemente expressas
pelas partes e os riscos colocados pela insegurança alimentar global",
segundo o gabinete do líder da ONU.Na
conferência de imprensa de hoje, Lavrov minimizou ainda o pacote de
sanções imposto à Rússia após a invasão da Ucrânia, aplicado
principalmente por países ocidentais, argumentando que o seu país está a
conseguir "desenvolver a sua própria economia e fazer uso de suas
próprias fontes", tudo isso "sem a dependência artificial do dólar”.O
governante disse estar convencido de que a guerra na Ucrânia trouxe
outra consequência: a perda de importância do dólar como moeda de
referência, face a outras moedas ou a moedas digitais, no que
classificou de "transição irreversível".Segundo
Lavrov, o mundo está a presenciar "o fim da globalização" e o
surgimento da "fragmentação e regionalização", e, nesse sentido, mas sem
entrar em detalhes, citou o seu recente encontro com o Presidente
brasileiro, Lula da Silva, e uma eventual reforma do Fundo Monetário
Internacional.Neste encontro com a
imprensa, o ministro referiu também a prisão do jornalista
norte-americano Evan Gershkovich e reconheceu que "há discussões" sobre
uma eventual troca de prisioneiros - existem 60 prisioneiros russos que
podem ser englobados nesta troca, segundo Lavrov -, mas evitou
aprofundar o tema, "porque isso só complicarias as coisas".O
chefe da diplomacia da Rússia aproveitou ainda a ocasião para reclamar
da dificuldade dos jornalistas russos em obter vistos nos Estados
Unidos, uma política que, na sua visão, visa "silenciar pontos de vista
alternativos". "Adotaremos medidas
recíprocas. Certamente levaremos em consideração essa conduta inadequada
da liderança dos Estados Unidos quando os norte-americanos precisarem
de algo de nós", assegurou Lavrov.A
Rússia, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e com
poder de veto, assumiu este mês a presidência rotativa do órgão, que tem
capacidade de fazer aprovar resoluções com caráter vinculativo.Lavrov
viajou para Nova Iorque no âmbito dessa presidência, tendo liderado na
segunda-feira a uma reunião sobre multilateralismo e hoje um debate
sobre o Médio Oriente.