Kissinger: O diplomata que deu Portugal "perdido para os comunistas" e errou
30 de nov. de 2023, 14:50
— Lusa
A
par de Frank Carlucci, o embaixador americano em Lisboa durante o Verão
Quente, Kissinger foi um dos alvos da esquerda em Portugal, pelo apoio à
ditadura de Salazar, as suas ligações ao Chile de Pinochet ou pela
guerra no Vietname, e até Zeca Afonso lhe dedicou uma canção, “Os
Fantoches de Kissinger”, no disco “Com as minhas tamanquinhas”. Em
25 de Abril de 1974, os Estados Unidos foram apanhados de surpresa pelo
golpe do Movimento das Forças Armadas, e até 1975 desconfiaram do que
se passava num país que tinha comunistas no Governo (ainda mais quando
Vasco Gonçalves se tornou primeiro-ministro) e não acreditavam que o PS
de Mário Soares e os “moderados” conseguissem derrotar os bolcheviques.Em
1974, numa reunião em Washington comparou Soares a Kerenksy, o
dirigente socialista russo derrotado por Lenine na revolução russa de
1917. Em Abril de 1975, numa reunião na
Casa Branca, até arriscou uma previsão: “Em 1980, podemos ter comunistas
a governar Portugal, a Grécia e talvez Itália.”Homem
forte do Departamento de Estado com os presidentes republicanos Richard
Nixon e Gerald Ford, num mundo dividido pela Guerra Fria, entre os
Estados Unidos e a União Soviética, Henry Kissinger considerou, a partir
de finais de 1974, que o país estava perdido para os comunistas. Se
caísse para os comunistas, seria uma vacina para a Espanha, país a viver
a transição do franquismo, ou a Itália, onde se debatia o possível
entendimento entre sociais-democratas e comunistas, que ficou conhecido
por "compromisso histórico". E chegou a prever, errando mais uma vez, que "os comunistas" iam matar, em 1975, Mário Soares."Os
comunistas vão arrastar Soares para a esquerda até ele perder apoio e
depois vão matá-lo. As forças armadas vão fazer um golpe de Estado sob
liderança dos comunistas", afirmou numa reunião, a 04 de fevereiro de
1975, do Comité dos 40, organismo para supervisionar operações
clandestinas e que incluía os serviços secretos, a CIA.E
em março de 1975, numa conversa com o ex-chanceler alemão Willy Brant,
fez as perguntas e deu as respostas: “O que vamos fazer se este tipo de
Governo [com comunistas] quiser manter o país [Portugal] na NATO? Quais
os efeitos disso em Itália? E em França? Provavelmente, temos que atacar
Portugal, qualquer que seja o resultado, e expulsá-lo da NATO.”Um
golpe de Estado da direita em Portugal, em pleno Verão Quente, foi
cenário que admitiu numa reunião em agosto de 1975: "Não sou assim tão
contra um golpe desse tipo [de direita], por muito chocante que seja
para os meus colegas..." Em rota de
colisão com Kissinger, Soares teve o apoio do embaixador Frank Carlucci,
que tinha ao lado Mário Soares, líder histórico socialista, e o grupo
dos "moderados", com Melo Antunes e Ramalho Eanes.Carlucci
e Soares concordavam, contra a tese do ex-secretário de Estado, que
Portugal nunca se tornaria comunista, ou um “Cuba na Europa”, pela
geografia, as ligações económicas, a NATO, a natureza conservadora dos
portugueses e o peso da Igreja.Henry
Kissinger esteve várias vezes em Portugal, a primeira antes do 25 de
Abril, em 1973, para agradecer o apoio do Governo de Marcelo Caetano à
ponte aérea das forças norte-americanas para Israel, via Açores, durante
a guerra de Yom Kipur. Depois, voltou em
2006, para uma conferência, encontrando-se com o Presidente da
República, Cavaco Silva. A última vez que esteve em Lisboa foi em maio,
para a uma reunião do grupo de Bilderberg.