Kiev acordou receosa com a memória de há um ano, mas ameaças de Moscovo não se cumpriram
Ucrânia/1 ano
24 de fev. de 2023, 12:19
— André Campos Ferrão/Lusa/AO Online
As ruas da
capital da Ucrânia estão mais silenciosas do que o habitual para uma
sexta-feira. É dia 24 de fevereiro de 2023 e precisamente há um ano,
durante a madrugada, começaram a soar as sirenes antiaéreas. Seguiu-se a
artilharia.Kiev foi bombardeada, a
artilharia russa desfigurou partes da cidade e as forças do Kremlin
estiveram a poucos quilómetros de entrar na cidade, enquanto a cercavam
ocupando as localidades na periferia.A
capital deveria ter caído em poucos dias, o país render-se-ia em poucas
semanas e a história ficaria por aqui. Mas Kiev resistiu, impediu o
avanço dos tanques russos pelas ruas da cidade, repeliu-os de Irpin e
Bucha e concentrou-se em expulsar os militares russos da região do
Donbass.A Este, há avanços e recuos de
ambos os lados, enquanto cidades são reduzidas a escombros e a população
sofre. Mas a capital está reforçada com sistemas antiaéreos modernos e
os militares confundem-se hoje com o resto da paisagem.Contudo,
a cidade está deserta em algumas artérias. Há automóveis nas estradas,
mas menos do que o habitual para uma sexta-feira, mesmo depois do início
da guerra. Nas ruas, algumas pessoas caminham para o trabalho, vão
fazer umas compras, a recolha do lixo realiza-se como habitualmente.Mas
os cafés, habitualmente movimentados, estão praticamente vazios. A
cidade, envolta na melancolia de há um ano, apresenta-se como
abandonada. A maioria dos estabelecimentos está aberta, mas ninguém
entra.“As pessoas estavam à espera de um
bombardeamento, acho que ficaram em casa por causa disso”, diz uma
transeunte a caminho da Catedral de Santa Sofia de Kiev, no centro da
cidade.O ministro dos Negócios
Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, avisou há semanas que o Moscovo tinha
algo pensado para 24 de fevereiro. Sem revelar o que estava planeado,
as palavras de Lavrov deram azo à especulação de que Kiev poderia ser
novamente bombardeada.“Mas não há sirenes,
nada, aqui brincámos que se as coisas vão acontecer, é melhor que
aconteçam dentro do horário previsto. Acho que as pessoas ficaram em
casa por isso mesmo, mas pela hora de almoço se continuar assim começam a
sair”, explica um cidadão que só tinha saído para passear o cão junto à
sede dos Serviços de Segurança da Ucrânia. Neste quarteirão há mais
barricadas do que o habitual.O edifício é
um dos pontos críticos da capital. Parar para observar o edifício faz
com que os militares abordem qualquer um para umas perguntas. Se as
forças da Federação Russa voltarem a tentar tomar a cidade, parte da
artilharia será seguramente apontada aqui. Prova disso são os edifícios à
volta, emparedados, com marcas da artilharia que os perfurou, ainda
inacessíveis um ano depois.São 12:00 e já
pouco resta da timidez com que a cidade acordou para o dia em que se
assinala um ano desde o início da invasão russa. Durante três horas, as
ruas eram dos militares, da polícia e dos jornalistas, espalhados por
todos os cantos da cidade. Mas agora a cidade volta a ser da população.Há
mais pessoas na rua, os transportes públicos já viajam praticamente
cheios. Ouvem-se conversas, automóveis a buzinar, os tubos de escape dos
velhos autocarros que circulam pela capital. Mas nada de sirenes. As
ameaças de Moscovo, pelo menos até agora, não se cumpriram, nem com a
ameaça no dia anterior, em que, aí sim, soaram as sirenes e ouviu-se uma
explosão quando os sistemas antiaéreos derrubaram um 'drone' russo.Kiev
volta à vida de despreocupação que induziria em erro quando se pensa
num país que está em guerra, não fossem as barricadas feitas com sacos
de serapilheira, a propaganda espalhada pela cidade e militares em cada
canto.