Keir Starmer enfraquecido e impopular após um ano como primeiro-ministro britânico
4 de jul. de 2025, 16:12
— Lusa/AO Online
Assinala-se o primeiro aniversário da vitória eleitoral esmagadora que o
Partido Trabalhista obteve a 4 de julho de 2024, quando conquistou 412
dos 650 lugares na Câmara dos Comuns (câmara baixa do parlamento
britânico), colocando um ponto final a 14 anos de governação
conservadora.Nos últimos 12 meses, Starmer
foi elogiado por mobilizar apoio internacional para a Ucrânia e
persuadir o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a assinar um
acordo comercial que alivia as tarifas sobre os produtos do Reino Unido.Mas,
ao nível da política interna britânica, ainda não é visível o impacto
do plano de reformas e de políticas em curso para melhorar as condições
de vida devido ao baixo crescimento económico e à inflação elevada, uma
das grandes apostas de Starmer.Nas
sondagens, o Partido Trabalhista foi ultrapassado pelo Partido
Reformista, formação populista de direita liderada pelo eurocético Nigel
Farage, um mau presságio para Starmer, agora visto com desconfiança
pelos eleitores britânicos e pelos próprios deputados.Nos
últimos dias teve de fazer várias concessões para conseguir avançar com
legislação para reduzir as despesas com a segurança social, atenuando
os cortes planeados para os subsídios de invalidez, que causaram
consternação no grupo parlamentar trabalhista. Depois
de mais de 120 deputados trabalhistas terem ameaçado votar contra a
proposta de lei, mais do que o suficiente para a chumbar, o Governo
recuou e removeu uma série de medidas, viabilizando o texto. "Penso
que a votação sobre a segurança social é emblemática dos fracassos do
Governo, que chegou ao poder com um programa para ganhar as eleições e
não com um programa para governar. E é notória a sua falta de
preparação", afirmou à agência Lusa o professor de História Britânica
Contemporânea da Universidade de Newcastle, Martin Farr.Na
sua opinião, não está em causa a necessidade de reformar a segurança
social, que representa quase 25% do Orçamento e 10% do Produto Interno
Bruto (PIB). "O Governo procurou apenas
poupar dinheiro. Foi isso que criou a crise no Partido Trabalhista. Não
há uma narrativa sobre a razão da reforma, é apenas um corte de custos. É
um dos muitos exemplos de má preparação, má auscultação e de políticos
pouco eficazes a explicarem a situação", resumiu.Políticos
e analistas falam da falta de uma visão política coerente e clara sobre
o que Starmer quer para o país, privilegiando uma abordagem pragmática.Mas a margem de manobra está muito limitada pelas promessas eleitorais de não aumentar impostos sobre pessoas e empresas. "A
opinião geral é que se trata de um erro, e que levou o Governo a
procurar cortes nos subsídios e outras medidas, como o corte no subsídio
de aquecimento durante o inverno para reformados, que são muito
impopulares no partido e também junto da opinião pública. O problema é
que o pragmatismo sem competência parece uma abordagem errática",
comentou, por sua vez, o professor de Política na Universidade Queen
Mary de Londres, Tony McNulty.Este
académico entende que "o Governo está a fazer algumas coisas boas em
termos de revitalização dos serviços públicos, como a saúde e a
educação, e a planear um investimento maciço de capital no setor
público”, mas admite a existência de um problema.“O maior problema tem sido a competência e a visão", frisou McNulty, lamentando a falta de bússola na liderança de Keir Starmer."Muitos
deputados consideram que o mais próximo que o Governo tem de uma visão é
uma visão apolítica tecnocrática do Ministério das Finanças", referiu à
Lusa.O Governo trabalhista argumenta que
já fez muito no primeiro ano: aumentou o salário mínimo, reforçou os
direitos dos trabalhadores, lançou novos projetos de habitação social e
injetou dinheiro no sistema público de saúde.Mas
também aumentou os impostos para os empregadores, retirou benefícios
fiscais aos agricultores, culpando os anteriores executivos
conservadores pela necessidade de fazer escolhas difíceis.Estas opções do executivo trabalhista contribuíram para a impopularidade de Starmer.Nos
últimos dias, Starmer reconheceu alguns erros. Em declarações ao jornal
Sunday Times, o governante assumiu que estava "muito concentrado no que
se estava a passar com a NATO e no Médio Oriente", e penitenciou-se
pela escolha de palavras em intervenções sobre a imigração.As dificuldades do líder trabalhista também são uma consequência da convulsão na política britânica cada vez mais fracionada.O
principal trunfo de Starmer neste momento é que não tem de convocar
eleições legislativas até 2029, pelo que o Governo não está em risco
imediato de cair.Mas a rebelião dentro do partido abriu um precedente."A
narrativa está a impor-se de que este é um governo que pode ser
constrangido", alertou Martin Farr, da Universidade de Newcastle,
antecipando um resto de mandato tumultuoso.BM // SCA Lusa/Fim