Juncker “escandalizado” com cortes orçamentais na UE impostos por ‘frugais’
20 de out. de 2020, 11:45
— Lusa/AO Online
Numa
entrevista concedida à Fundação Schuman no início do mês e publicada
esta semana, o ex-presidente do executivo comunitário lamenta que o
acordo alcançado em julho passado em torno do orçamento da União para
2021-2027 contemple cortes avultados em diversas políticas relativamente
à proposta original apresentada ainda pela sua Comissão.“O
Conselho Europeu cortou no financiamento do programa Erasmus, baixou
também o orçamento para a Defesa, para a Investigação, para a Saúde.
Estou escandalizado com estas derrapagens, que se devem à influência
nociva dos quatro ‘frugais’”, disse, referindo-se às posições negociais
de Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca.Estes
quatro Estados-membros, autodenominados ‘frugais’, acertaram posições
durante as negociações sobre o Fundo de Recuperação e o Quadro
Financeiro Plurianual, negando-se a aprovar um compromisso mais
ambicioso em termos orçamentais.Juncker
nota também na entrevista ao centro de estudos europeus que mesmo o
Plano de Relançamento acordado para fazer face à crise económica
provocada pela pandemia da covid-19, num valor total de 750 mil milhões
de euros, “não é assim tão impressionante”.“Se
compararmos com os 550 mil milhões [de euros] de investimentos gerados
pelo ‘plano Juncker’, é quase na mesma ordem”, observou, referindo-se
àquela que foi a ‘bandeira’ do seu mandato, o plano de investimentos
estratégicos, lançado em 2014, no primeiro ano de mandato do executivo
liderado pelo dirigente luxemburguês.Juncker
também notou que, quando era presidente do Eurogrupo, lançou em
conjunto com Itália a ideia de ‘eurobonds’, que foi rejeitada, constando
que, agora, a Comissão irá aos mercados angariar os 750 mil milhões de
euros “como se fosse a coisa mais normal do mundo”, considerando que o
princípio é o mesmo, o do endividamento comum.Por
fim, mesmo relativamente à suspensão das regras do Pacto de
Estabilidade e Crescimento, decidida este ano pela Comissão dirigida por
Ursula von der Leyen para permitir aos Estados-membros desviarem-se das
regras de défice e dívida pública para fazer face à crise da covid-19,
Jean-Claude Juncker recordou que, no quadro da crise financeira
anterior, avançou ele próprio com essa ideia, “contra a vontade de
Alemanha e Holanda”.Tanto o Quadro
Financeira Plurianual para 2021-2027 como o Fundo de Recuperação
acordados em julho passado pelos líderes europeus, depois de uma
‘maratona’ negocial de quatro dias e quatro noites, aguardam ainda o
acordo interinstitucional com o Parlamento Europeu, sem o qual não
poderão entrar em vigor em 01 de janeiro próximo.