Juízes apontam desperdício de trabalho e dinheiro com nova distribuição dos processos
11 de mai. de 2023, 08:43
— Lusa/AO Online
“Vamos ter desperdício
anual de muitas centenas de horas de trabalho e muito dinheiro gasto em
deslocações, julgamentos e diligências adiados ou interrompidos, e mais
pontos críticos que os advogados especializados em nulidades e
incidentes vão usar para atrasar aqueles processos que todos sabemos
quais são”, afirma Manuel Soares, que tinha defendido anteriormente o
adiamento da entrada em vigor das novas regras.Questionado
pela Lusa sobre a portaria que altera as regras relativas à
distribuição eletrónica dos processos nos tribunais judiciais e nos
tribunais administrativos e fiscais, o líder da ASJP assume não saber se
os tribunais estão preparados para a mudança, uma vez que “o Ministério
da Justiça não respondeu” às questões do sindicato dos juízes.Segundo
a portaria publicada em Diário da República em 27 de março, que veio
regulamentar mais de um ano depois as leis do novo modelo de
distribuição processual aprovadas pelo parlamento em 2021, “passa a ser
necessário reunir diariamente, em todos os locais onde ocorre
distribuição, um conjunto de operadores da justiça para assistir ao ato
da distribuição, que até aqui dispensava, na maioria dos casos, qualquer
intervenção humana, e elaborar uma ata à qual é anexado o resultado da
distribuição”.Na nova regulamentação, a
distribuição tem como intervenientes o presidente do tribunal, que
designa “um juiz para presidir e um substituto, para os casos em que
aquele se encontre impedido”, um magistrado do Ministério Público (MP),
um oficial de justiça (e um substituto, designados pelo administrador
judiciário ou secretário do tribunal) e um advogado.“Este
é um daqueles casos em que uma boa ideia se pode transformar numa má
ação por falta de planeamento atempado e consulta a quem está no terreno
e conhece melhor os problemas”, adverte Manuel Soares, que reforça que o
“modelo devia ter sido mais desburocratizado” e os efeitos devidamente
acautelados antes da respetiva aplicação. “Não
tem sentido aplicá-lo nos turnos de férias judiciais, não tem sentido
aplicá-lo nos tribunais onde só há um juiz, não tem sentido fazer várias
distribuições por dia, não tem sentido que os juízes e procuradores
tenham de gastar tempo em deslocações para atos burocráticos que podiam
ser praticados por videoconferência, nem tem sentido colocar juízes a
certificar a autenticidade de um ato automático feito por um computador
com base num algoritmo que desconhecem”, acrescenta. O
presidente da ASJP não equaciona contestar na justiça a aplicação das
novas regras, ao assinalar a vontade dos magistrados de “estar do lado
da solução e não criar mais problemas”. Todavia deixa um aviso ao
Ministério da Justiça: “Quando nos quiserem ouvir, estamos aqui para
ajudar. Se não nos ouvem, então depois não nos venham pedir contas”.Por
sua vez, o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público que tinha
igualmente apelado à suspensão das novas regras e à realização urgente
de reuniões para corrigir uma solução legislativa considerada “absurda” -
esclareceu apenas que pediu uma audiência à ministra da Justiça,
Catarina Sarmento e Castro, e que ainda aguarda por esse encontro.