Juiz relator sem dúvidas que “houve tentativa de golpe” no Brasil e que o líder é Bolsonaro
9 de set. de 2025, 17:11
— Lusa/AO Online
“Este
julgamento não discute se houve tentativa de golpe (…) o que discute é
se os réus participaram”, afirmou o juiz relator do processo que acusa o
ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e outros sete membros da sua
cúpula de tentativa de golpe de Estado.“Houve
uma organização criminosa que gerou dano” ao país, frisou Alexandre de
Moraes na sustentação do seu voto, o primeiro de cinco juízes que
compõem a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).“O
conjunto é de uma organização criminosa sob a liderança de Jair Messias
Bolsonaro, durante o período de julho de 2021 até 08 de janeiro de
2023”, sublinhou.O juiz relator detalhou que a “organização criminosa, com divisão de tarefas e hierarquizada praticou vários atos executórios”.Primeiro,
ao “atentar contra o Estado Democrático de Direito, pretendendo
restringir ou suprimir, mediante grave ameaça, a atuação de um dos
Poderes do Estado”, mas também através de “atos executórios para
consumir, por meio de violência ou grave ameaça, um governo
legitimamente constituído”, como o Governo de Lula da Silva que venceu
as eleições de outubro de 2022 contra o próprio Jair Bolsonaro.A “finalidade era muito clara”: “perpetuação no poder”, sublinhou o juiz.Para
isso, justificou, a organização planeou atos para desacreditar as
urnas, a justiça eleitoral, colocar a população contra o poder
judiciário e assim “se perpetuarem no poder”.Num
discurso forte, o juiz relator disse ainda, referindo-se a membros da
cúpula de Bolsonaro hoje em julgamento, que "não é razoável achar normal
um general do Exército de quatro estrelas, um ministro do Gabinete de
Segurança Institucional, ter uma agenda com anotações golpistas”. “Não
consigo entender como alguém pode achar normal em uma democracia, em
pleno século 21, uma agenda golpista", disse Moraes, referindo-se às
anotações encontradas na casa do general na reserva e ex-chefe do
Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República Augusto
Heleno, também em julgamento.Antes da
leitura da justificação do voto, Alexandre de Moraes rejeitou todos os
pedidos de nulidade das defesas dos réus e a alegadas incongruências do
réu delator.O julgamento contra Jair Bolsonaro entrou hoje na última semana com a votação dos cinco juízes, até sexta-feira.O
coletivo de juízes que forma a Primeira Turma (coletivo) do Supremo
Tribunal Federal (STF) é composto pelo juiz Alexandre de Moraes
(considerado o 'inimigo número um' do bolsonarismo), por Flávio Dino
(ex-ministro da Justiça do Presidente Lula da Silva), Luiz Fux (indicado
ao STF pela então Presidente Dilma Roussef), Cármen Lúcia (indicada ao
STF por Lula da Silva) e Cristiano Zanin (ex-advogado pessoal de Lula da
Silva).Hoje, o primeiro voto é feito por
Alexandre de Moraes, seguindo de Flávio Dino e dos restantes juízes que
votam em ordem crescente de antiguidade no Tribunal, ficando por último o
presidente do coletivo, Cristiano Zanin, que também será o responsável
por proclamar o resultado.Além de Jair
Bolsonaro, estão em julgamento o deputado federal Alexandre Ramagem, o
almirante Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha, o ex-ministro
da Justiça Anderson Torres, o general na reserva e ex-chefe do Gabinete
de Segurança Institucional da Presidência da República Augusto Heleno, o
tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, o
general e ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira e o general na
reserva e ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Neto.Este
grupo chamado de "Núcleo 1" ou "Núcleo Crucial", composto por oito
réus, responde por tentativa de abolição violenta do Estado de Direito
Democrático, tentativa de golpe de Estado, participação em organização
criminosa armada, dano qualificado e deterioração de património.O
ex-Presidente não marcou presença no tribunal, alegando motivos de
saúde e a sua defesa pediu ao tribunal que Jair Bolsonaro, atualmente em
prisão domiciliária, possa no domingo ser submetido a uma pequena
intervenção num hospital privado em Brasília para a remoção de algumas
lesões na pele.