Jovens açorianos relatam experiência enriquecedora e intensa na Ucrânia
15 de set. de 2025, 10:19
— Carlota Pimentel
Os jovens açorianos Martim Medeiros e Álvaro Borges consideram que a
participação no Enlargement CEmp, realizado em Lviv, foi uma experiência
marcante, quer pelo contacto direto com a realidade da guerra, quer
pelo envolvimento no debate sobre o futuro da União Europeia (UE).Martim
Medeiros sublinha que o EnlargementCEmp “foi, de facto, uma experiência
muito enriquecedora” e destaca o convívio com os 20 jovens ucranianos,
que tal como os portugueses, representavam diferentes regiões do país.“Isto
contribuiu para a compreensão do panorama na sua globalidade, ou seja,
para que as diferentes esferas, como por exemplo a intensidade dos
ataques ou o nível de proliferação de eletricidade, saneamento e rede,
ou mesmo a dicotomia entre as grandes cidades e o campo, fossem
esclarecidos”, avançou.O jovem do Faial acrescenta que a transição
digital na Ucrânia surpreendeu pela sua eficiência. “Seguramente, a
nível de transição digital, os ucranianos estão muito à frente de muitos
países europeus, incluindo, obviamente, Portugal. Todo o sistema deles é
menos burocrático. Conseguem resolver muitos problemas com ‘cliques’ no
telemóvel, pois existe uma aplicação governamental que o permite e
centraliza cartões, licenças, multas, entre outros, sendo-lhes até
possível casar e divorciar por lá”, exemplificou. Sobre os
ucranianos, o estudante afirma que “são um povo acolhedor, simpático e
bem-disposto. Para além disso, são inquebrantáveis e mostram, apesar do
cansaço, vontade de continuar a lutar pelo que é seu por direito”. O
jovem descreve ainda Lviv como uma cidade onde a vida decorre com
relativa normalidade, apesar da presença de militares e do recolher
obrigatório.Um dos momentos mais marcantes para Martim Medeiros foi a
visita ao cemitério que “antes de 2022, era um parque público, um
relvado. Depois do início da guerra, foi convertido em cemitério e as
campas decoradas com flores e bandeiras, cobrem toda a área. Ao lado de
algumas sepulturas existem bancos, para que familiares e amigos possam
prestar homenagem”, conta.E prossegue: “Uma ucraniana
confidenciou-me que quando a guerra é romantizada, é aquilo que
acontece, apontando para o terreno. Mas o aperto maior no nó que já se
dava na garganta aparecia quando se vislumbravam os familiares e os
amigos entre as cores azuis e amarelas das bandeiras ucranianas. Faziam
visitas comovedoras, como não podia deixar de ser, pais, mães, irmãos,
filhos, amigos e mulheres”.O faialense realça que aquele é apenas
“um no meio de um infeliz mar de muitos outros cemitérios, que se
espalham por cidades e regiões daquele país”.Por sua vez, Álvaro
Borges, de São Miguel, afirma que a viagem “foi uma experiência intensa e
desafiante, marcada pela incerteza da segurança no terreno”. “Era
nosso dever olhar cara a cara os nossos colegas ucranianos, escutar as
suas histórias e levar a solidariedade portuguesa e açoriana até eles,
num momento tão difícil da sua vida e da história do país”, frisa.O
jurista relata que se encontraram “com jovens de todo o país, muitos
carregando histórias de dor e resiliência. Alguns tinham perdido
familiares no conflito, outros foram forçados a abandonar a sua casa,
agora ocupada pelos russos. O peso destas histórias era indescritível,
mas revelador”. Num encontro com a primeira-ministra ucraniana,
disse-lhe que “o povo ucraniano é, sem dúvida, um dos mais corajosos do
mundo, resistindo desde 2022 a uma invasão ilegal e bárbara que viola
todos os princípios do direito internacional”.Álvaro Borges sublinha
que “a bandeira dos Açores foi erguida em encontros com Vadym
Halaichuk, primeiro vice-presidente do comité para a Integração da
Ucrânia na UE e com o presidente da Câmara de Lviv”, acrescentando que a
embaixadora da Ucrânia em Portugal recebeu das mãos do duo açoriano “
uma carta do presidente do Governo dos Açores, agradeceu ao povo
açoriano pelo apoio prestado e manifestou a intenção de visitar os
Açores em breve”. Álvaro Borges recorda também a visita ao
cemitério de Lychakivske, onde repousam cerca de 1200 militares desde
fevereiro de 2022, como um dos momentos mais marcantes: “Ver mães,
filhos e viúvas a chorar fez-nos sentir, de forma profunda, o horror da
guerra”.O micaelense refere ainda que os jovens não sentiram medo,
apesar de dois avisos de ataques aéreos durante os debates. “Reforçou-se
a convicção de que os jovens não podem ceder ao medo”, constatou.Para
Álvaro Borges, ir à Ucrânia, em plena guerra, foi “mais do que uma
missão, foi um testemunho de coragem. Levámos a alma dos Açores e
erguemos a nossa voz em nome de uma juventude que recusa o silêncio”.