Jovem deportado para o Brasil após AIMA demorar dois anos a decidir reagrupamento
Hoje 16:36
— Lusa/AO Online
O
advogado Renato Teixeira, que representa a família, disse à Lusa que
Kauê Matos chegou a Portugal há cerca de dois anos, quando tinha 17
anos, acompanhado pelos pais e pelo irmão mais novo.Segundo
o advogado, os pais apresentaram um pedido de autorização de residência
através do então regime de manifestação de interesse, prevendo avançar
posteriormente com o pedido de reagrupamento familiar do filho, ainda
menor de idade.Renato Teixeira disse que a
legislação da altura estabelecia um prazo máximo de 90 dias úteis para a
Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) decidir esses
processos, mas a decisão só foi conhecida cerca de dois anos depois,
quando o jovem já tinha completado 19 anos.Ao
atingir a maioridade, Kauê Matos deixou de poder beneficiar do
reagrupamento familiar e a alternativa passou por requerer uma
autorização de residência para estudantes, uma vez que frequentava o
ensino secundário.Contudo, segundo o
advogado, a AIMA retirou da plataforma eletrónica a possibilidade de
apresentar esse pedido, obrigando os interessados a recorrer aos
tribunais para obter um agendamento.Segundo
Renato Teixeira, os pais não tinham capacidade financeira para
contratar um advogado e tentaram durante vários meses marcar atendimento
através de chamadas telefónicas e mensagens de correio eletrónico, sem
obter resposta.Entretanto, o jovem recebeu
uma bolsa da escola que frequentava, na Figueira da Foz, para
participar num programa Erasmus na Irlanda.Quando
regressou a Portugal no domingo foi intercetado no Aeroporto Humberto
Delgado, em Lisboa, onde as autoridades verificaram que permanecia no
país sem autorização de residência válida e determinaram a sua retenção e
posterior afastamento.Segundo o advogado,
Kauê Matos permaneceu retido durante quatro dias na zona internacional
do aeroporto, podendo comunicar com os pais apenas por telefone.Renato
Teixeira disse que a mãe conseguiu vê-lo apenas uma vez e criticou as
condições em que o jovem permaneceu, referindo que dormiu num colchão
colocado no chão e esteve vários dias sem poder tomar banho.Na
segunda-feira, os pais contactaram o advogado, que avançou com uma ação
para intimar a AIMA a agendar a entrega do pedido de autorização de
residência e, posteriormente, com uma providência cautelar para
suspender a decisão de afastamento.Renato
Teixeira explicou que a segunda ação só pode ser apresentada depois de o
primeiro processo receber número de entrada no tribunal.O
advogado afirmou que o inspetor responsável pelo processo no aeroporto
chegou a adiar o afastamento do jovem deixando partir vários voos com
destino ao Brasil sem o colocar a bordo para permitir que existisse uma
decisão judicial, garantindo que libertaria o jovem caso fosse
determinada a marcação do atendimento na AIMA.Nenhuma das decisões foi proferida em tempo útil.Renato
Teixeira afirmou que a lei prevê que este tipo de processos urgentes
seja apreciado no prazo de 48 horas, mas considerou que os tribunais
administrativos enfrentam atualmente uma sobrecarga provocada pelo
aumento exponencial de ações relacionadas com a imigração.Segundo
o advogado, desde que a AIMA deixou de permitir a apresentação de
determinados pedidos através da plataforma eletrónica, agravando as
dificuldades de contacto com os serviços, os tribunais administrativos
passaram a receber entre mil e 1.500 novos processos por dia.Sem decisão judicial, o jovem acabou por ser deportado para o Brasil na quarta-feira à noite.Kauê
Matos está agora em casa da avó materna, no estado de São Paulo,
estando, segundo o advogado, “muito abalado” por ter sido separado dos
pais e do irmão mais novo, que permanecem em Portugal.A
defesa vai agora aguardar pelas decisões das duas ações administrativas
já apresentadas e, em função do seu desfecho, definir a estratégia para
tentar fazer regressar o jovem a Portugal.Entre
as hipóteses em análise estão o pedido de um visto de estudante junto
do consulado português no Brasil ou o regresso ao país caso a AIMA venha
entretanto a marcar o atendimento para formalização do pedido de
autorização de residência.