Jovem artista da Terceira leva pintura autobiográfica a Londres
Hoje 10:00
— Maria Andrade
A arte faz parte da vida de Margarida Pinheiro desde pequena. Na Ilha Terceira, desenhar e pintar ocupavam um lugar central do seu quotidiano, preenchendo cadernos e manuais escolares com intervenções visuais em praticamente todas as páginas. As viagens em família pela Europa reforçaram a sua paixão e abriram-lhe os horizontes, permitindo-lhe visitar museus icónicos como as Galerias Uffizi, em Florença, o Louvre, em Paris, o Reina Sofía e o Museu do Prado, em Madrid. Munida de um pequeno caderno, registava detalhes de obras que a fascinavam. Ao longo da sua juventude, Margarida relata que sempre esteve envolvida em diversas atividades artísticas. Frequentou clubes de pintura e escultura, aulas de música, ballet e teatro, explorando diferentes linguagens artísticas. “Quando chegou o momento de escolher que curso seguir no ensino secundário, não havia dúvidas de que Artes Visuais era o meu caminho”, afirmou, em entrevista ao Açoriano Oriental.A mudança para Londres surgiu de forma quase inevitável. Inspirada pelas experiências de viagem e pelo desejo de crescimento, Margarida percebeu que, para se afirmar como artista, era importante estar onde se encontram os centros de referência da arte contemporânea. Durante o terceiro ano do curso em Lisboa, começou a considerar estudar numa das capitais europeias da arte, como Londres, Paris ou Berlim. Em 2019, visitou Londres pela primeira vez e ficou fascinada pela diversidade de práticas artísticas e pela abertura cultural da cidade, fatores que se destacavam face à realidade portuguesa.“Sinto que esta mudança para Londres me abriu horizontes, não só pelo contacto com outras culturas, outros modos de viver e de fazer arte, mas também porque o mestrado que realizei na University of the Arts London me deu a oportunidade de explorar a minha identidade artística de uma forma que em Portugal nunca tinha experienciado.”, disse.Margarida recorda que o contacto com professores, artistas convidados, exposições em grandes museus e galerias, bem como os métodos de autorreflexão que aprendeu, transformou profundamente o seu processo criativo, que se tornou cada vez mais autobiográfico e introspetivo.Em 2021, a artista alcançou um marco significativo: foi selecionada para integrar a exposição “London Grads Now.21” na Saatchi Gallery. Ver um dos seus trabalhos expostos naquele espaço foi “uma profunda sensação de orgulho e esperança”. O reconhecimento naquele contexto competitivo abriu portas a novas oportunidade e reafirmou a validade do caminho que havia escolhido.Mais recentemente, Margarida expandiu a sua atuação assumindo também a curadoria do projeto expositivo “Dabar”. A experiência de organizar e curar a exposição permitiu-lhe conciliar a visão do artista com a visão de quem constrói o diálogo entre obras. A artista reconhece que esta experiência foi enriquecedora, ajudando-a a compreender a arte não apenas como uma criação individual, mas também como prática que dialogo com o espaço e com o público.O eixo central da obra de Margarida Pinheiro é o caráter autobiográfico. As cenas que representa partem de memórias de infância, do quotidiano e de referências à tradição clássica da história da arte, confessa. Explora temas como a nostalgia, morte, amor, relações interpessoais e a relação com o próprio, recorrendo frequentemente ao retrato como ferramenta de investigação. Ainda assim, admite que os eu interesse não está apenas na representação física, procura ir além, investigar a essência e a complexidade da condição humana, recusando-se a definir-se como retratista.Em entrevista, a artista reflete ainda sobre as diferenças entre o contexto açoriano e londrino. Margarida afirma que, nos Açores, o isolamento geográfico limita a visibilidade e oportunidades, mesmo com a ajuda das redes sociais. Já em Londres, a arte faz parte do quotidiano das pessoas, existe uma rede de apoio institucional e privado para jovens artistas e múltiplos espaços culturais que possibilitam a experimentação e visibilidade internacional. O futuro é, para Margarida, um território de incerteza, mas também de oportunidades.