José Sócrates acusa tribunal de escolha intencional de juiz e de ludibriar a lei
14 de set. de 2018, 08:45
— Lusa/AO Online
Num artigo de
opinião publicado hoje na página da Internet da TSF, José Sócrates
sublinha que "o que se passou com a denominada 'atribuição manual' não
foi uma falha, um descuido burocrático que se possa atribuir a um
funcionário", mas, "pelo contrário, (...) num ato intencional de escolha
de um juiz, ludibriando a lei". O
ex-governante defende que "o mais provável é que o processo tenha sido
ilegalmente 'avocado' e o principal suspeito é o juiz Carlos Alexandre".Sócrates,
que chegou a estar preso preventivamente durante dez meses e depois em
prisão domiciliária, está acusado de três crimes de corrupção passiva de
titular de cargo político, 16 de branqueamento de capitais, nove de
falsificação de documentos e três de fraude fiscal qualificada.A
acusação sustenta que Sócrates recebeu cerca de 34 milhões de euros,
entre 2006 e 2015, a troco de favorecimentos a interesses do
ex-banqueiro Ricardo Salgado no Grupo Espírito Santos (GES) e na PT, bem
como por garantir a concessão de financiamento da Caixa Geral de
Depósitos ao empreendimento Vale do Lobo, no Algarve, e por favorecer
negócios do Grupo Lena.Segundo
José Sócrates, "este processo tem um longo historial de abusos" e dá
exemplos: "A detenção ilegal, a prisão para investigar, os prazos legais
escandalosamente ultrapassados, o segredo de justiça violado ao serviço
de uma violenta campanha de difamação promovida pelo Estado e ainda a
entrevista televisiva do juiz de instrução, onde ostensivamente
evidenciou uma completa parcialidade, fazendo desprezíveis e desonestas
insinuações". Agora,
acrescenta, o que está em causa "é a fundada suspeita que este processo
foi viciado, corrompido desde o seu início, por forma a ter o juiz
titular que uma das partes desejava, um juiz com partido, um juiz
escolhido pelo Estado, isto é, pelo Ministério Público".
O antigo primeiro-ministro afirma que a existência de um sorteio ou de
"atribuição manual" é um dado fundamental, que faz a "diferença entre
legalidade ou arbítrio; diferença entre transparência ou manipulação;
diferença entre boa-fé e manipulação para que uma das partes escolha o
juiz.A defesa de José Sócrates entregou na quinta-feira o requerimento de abertura de instrução no processo Operação Marquês.A
Operação Marquês tem como principal arguido o ex-primeiro-ministro, que
está acusado de 31 crimes de corrupção passiva, falsificação de
documentos, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.O
inquérito da Operação Marquês culminou na acusação a 28 arguidos - 19
pessoas e nove empresas - e está relacionado com a prática de quase duas
centenas de crimes de natureza económico-financeira.