Já não se pode deixar o carro no aeroporto à noite: marienses revoltam-se e criam petição
Hoje 10:11
— Daniela Arruda
Deixar o carro no parque do Aeroporto de Santa Maria para apanhar um voo e
regressar no dia seguinte era, até há poucos meses, normal para muitos
residentes da ilha. Hoje, essa possibilidade deixou de existir. A
proibição de estacionar durante a noite nos parques do aeroporto está a
gerar revolta entre os marienses e acusam a ANA/VINCI Aeroportos de
ignorar a realidade de uma ilha que depende exclusivamente do transporte
aéreo.A contestação já deu origem a uma petição pública com mais de
650 assinaturas. E o problema não está só no estacionamento, está nas
dificuldades que esta ausência implica na vida de quem vive numa ilha
pequena, afastada e sem alternativas de transporte.Em Santa Maria, o
aeroporto é a única porta de entrada e saída para os residentes: para
quem precisa de ir a consultas médicas, fazer exames, tratar assuntos de
trabalho, estudar ou resolver problemas familiares fora da ilha depende
sempre de um avião.Por questões de logística, muitas dessas viagens
obrigam a ir num dia e a regressar no outro, ou dali a dois. Até há uns
meses, muitos marienses deixavam o carro no aeroporto e quando
regressavam tiravam o carro. Mas agora já não podem.Esta proibição
tem ainda mais impacto quando não há uma rede de transportes públicos
capaz de servir os horários dos voos. Muito deles descolam de madrugada e
outros aterram ao final da tarde e à noite. E quando se pensa em
táxis, a verdade é que este serviço é também limitado e, claro, é mais
um custo para quem já terá despesas associadas à viagem. Todas estas
condicionantes são apresentadas e explicadas por Rosário Figueiredo,
primeira peticionária. Para si, estas mudanças só trazem mais
desigualdades injustas para quem vive numa ilha onde as deslocações de
avião são, muitas vezes, uma necessidade e não uma opção.“Não
estamos a falar de um luxo. Estamos a falar de uma necessidade básica
para quem vive numa ilha sem transportes públicos capazes de servir o
aeroporto nos horários dos voos”, defende.A
situação já chegou à Câmara Municipal de Vila do Porto. Em resposta à
peticionária, a autarquia confirma que tem insistido junto da ANA para
que se encontre uma solução. Contudo, acrescenta que as alterações foram
feitas ao abrigo da legislação que regula os aeroportos concessionados. Além
disso, a autarquia apurou ainda que existe a intenção de voltar a
permitir o estacionamento noturno, mas só mediante o pagamento.Os
subscritores da petição não concordam com a cobrança de taxas. O que
está em causa, dizem, é garantir que os marienses tenham um parque onde
possam deixar o carro quando precisam de sair da ilha durante um ou mais
dias e que, este espaço, seja público.E para quem pensa que pode
haver falta de espaço, Rosário Figueiredo sublinha que espaço é o que
não falta. Além de terrenos, os parques que existem estão ocupados com
carros de empresas de aluguer, o que para Rosário Figueiredo levanta
algumas questões.A petição quer que sejam encontradas soluções
rápidas e adequadas à realidade da ilha de Santa Maria e os subscritores
defendem que seja criado uma parque acessível, público e disponível
também durante a noite. Acusam ainda a ANA/VINCI de olhar para o
aeroporto com o objetivo único de lucro, esquecendo que está gerir uma
infraestrutura essencial para a vida dos marienses.O objetivo é que a
petição seja discutida pelo Governo Regional e que sejam exigidos
esclarecimentos à empresa responsável pela gestão do aeroporto. Uma vez
que a ANA/VINCI não tem respondido aos pedidos de informação feitos
pelos peticionários.O jornal Açoriano Oriental também tentou saber
mais sobre a situação junto da entidade gestora, mas até ao momento não
teve reposta.Enquanto não surge uma solução, a sensação de muitos
marienses é que o direito à mobilidade está mais uma vez posto em causa
na ilha de Santa Maria.