Itália debate consequências do voto de Meloni contra “ex-amiga” Von der Leyen
19 de jul. de 2024, 15:59
— Lusa/AO Online
Na
imprensa italiana de hoje, muitos analistas consideram que a delegação
dos Irmãos de Itália – o partido pós-fascista liderado por Meloni –
acabou por votar em bloco contra a recondução de Von der Leyen por
questões de política interna.Pretendeu
evitar que a Liga de Matteo Salvini, partido radical de direita que
também forma parte da coligação governamental, explorasse o que iria
classificar como uma “traição” ao eleitorado italiano de direita, mas
concordam que tal deverá retirar ao país influência na próxima Comissão.
Para o Corriere della Sera, ao votar
contra a recondução da “ex-amiga” Von der Leyen – que até acabou por
garantir a reeleição por uma margem confortável na votação realizada na
quinta-feira no Parlamento Europeu -, Itália terá visto esfumar-se a
possibilidade de ter uma vice-presidência executiva na próxima Comissão
Europeia, “que dá acesso à sala de comandos” de Bruxelas.“E
agora? Irá a Itália acabar à margem da União Europeia, de braço dado
com os soberanistas de [Viktor] Orbán, [Marine] Le Pen e Salvini?”,
questiona o jornal, apontando que a relação entre Meloni e Von der
Leyen, muito próxima no último ano e meio, “já não voltará a ser como
dantes”.De acordo com o diário La
Repubblica, Meloni acabou por votar contra Von der Leyen “após meses de
negociações, vários passeios de helicóptero e até viagens a África de
braço dado”.A primeira-ministra argumentou
que se tratou de um voto coerente – a líder dos ‘Fratelli d’Italia’ já
havia sido a única chefe de Estado ou de Governo dos 27 a votar contra
as escolhas para os cargos de topo da UE, incluindo de António Costa
para presidente do Conselho Europeu -, mas para o jornal, este voto é
“um auto-golo” e “agora a Itália corre o risco de acabar na Série B”, ou
seja, na segunda divisão.A generalidade
dos editoriais atribui o voto de Meloni à pressão exercida pelo seu
“aliado” Salvini – mas grande rival, dado os dois partidos de direita
radical disputarem sensivelmente o mesmo eleitorado -, com o Corriere
della Sera a considerar que o líder da Liga “ganhou este jogo, ao
colocar a líder da direita italiana em grandes dificuldades”, opinião
partilhada pelo diário La Stampa, segundo o qual Salvini “estava apenas à
espera do ‘sim’ de Meloni [a Von der Leyen] para se atirar a ela e
acusá-la de estar a ‘amolecer’”.“Agora,
certamente, Matteo Salvini tem menos uma arma contra a
primeira-ministra, que não pode acusar de «traição», mas esta é uma
visão míope que corre o risco de isolar a Itália, pelo menos na Europa”,
comenta o jornal Il Sole 24 Ore, uma ideia bastante difundida também
por figuras da oposição, designadamente do Partido Democrático
(socialista), que acusam Meloni de “isolar” Itália na cena europeia, ao
colocar-se “no canto da direita radical”, votando “como Orbán”.Von
der Leyen foi eleita na quinta-feira para um novo mandato de cinco anos
à frente do executivo comunitário com 401 votos a favor (bem acima dos
360 necessários), graças ao apoio do Partido Popular Europeu (PPE,
principal família política, da qual era a candidata cabeça de lista nas
europeias), Socialistas Europeus, Liberais e também Verdes.A
dirigente alemã contou, no entanto, com o apoio de um dos três partidos
que formam o Governo de coligação de direita e extrema-direita em
Itália, o Força Itália (PPE), já que os Irmãos de Itália e a Liga
votaram contra.