Irão: Guerra está a impedir que alimentos e medicamentos cheguem a milhões
Hoje 11:31
— Lusa
A 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva militar contra o Irão, que retaliou com o encerramento do estreito de Ormuz - uma via marítima fundamental para o mercado petrolífero - e lançou ataques contra Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.A situação provocou um aumento dos preços do petróleo e de outras matérias-primas.As organizações humanitárias disseram que o conflito não só interrompeu rotas marítimas vitais, criando uma crise energética global, como também está a afectar as cadeias de abastecimento, obrigando a utilizar rotas mais dispendiosas e demoradas.As rotas de centros estratégicos, como Dubai, Doha e Abu Dhabi, foram afetadas e os custos de transporte dispararam com o aumento das taxas de combustível e de seguro.O Programa Alimentar Mundial afirma que dezenas de milhares de toneladas de alimentos estão a sofrer atrasos significativos no transporte.O Comité Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) tem 130 mil dólares (113 mil euros) em produtos farmacêuticos destinados ao Sudão, devastado pela guerra, retidos no Dubai, e quase 670 caixas de alimentos terapêuticos para crianças gravemente desnutridas na Somália, retidas na Índia.O Fundo das Nações Unidas para a População afirma que o envio de equipamento para 16 países já sofreu atrasos.Os drásticos cortes dos Estados Unidos na ajuda externa já tinham prejudicado muitos grupos humanitários, que dizem que a guerra está a agravar o problema.As Nações Unidas afirmam que esta é a perturbação mais significativa da cadeia de abastecimento desde a pandemia de covid-19, com um aumento de até 20% nos custos de envio e atrasos devido ao redireccionamento de mercadorias.Além disso, a guerra está a criar novas emergências, como no Irão, e também no Líbano, onde pelo menos um milhão de pessoas foram deslocadas.“A guerra contra o Irão e a disrupção no Estreito de Ormuz correm o risco de levar as operações humanitárias para além dos seus limites”, disse a diretora associada de assuntos públicos e comunicação para África do IRC, Madiha Raza.Mesmo quando os combates cessarem, o impacto nas cadeias de abastecimento globais poderá continuar a atrasar a ajuda humanitária vital durante meses, disse Raza.O aumento dos preços também significa que as organizações têm de fazer escolhas difíceis.“No final, sacrifica-se o número de crianças que se serve (...) ou sacrifica-se a quantidade de artigos que se pode comprar”, disse a presidente da Save the Children para os Estados Unidos, Janti Soeripto.O grupo afirmou que tem reserva nos países onde opera, mas alguns deles podem esgotar em poucas semanas.A Médicos Sem Fronteiras afirmou que o aumento dos preços dos combustíveis na Somália — onde cerca de 6,5 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda — elevou os custos de transporte e alimentação, dificultando o acesso aos cuidados médicos.Na Nigéria, o IRC afirma que os preços dos combustíveis subiram 50% e as clínicas estão a ter dificuldades em manter equipamentos, como geradores, a funcionar, e as equipas móveis de saúde reduziram as suas operações.Uma das maiores preocupações é o impacto que a guerra terá na fome global.O Programa Alimentar Mundial alerta que, se o conflito se mantiver até junho, mais 45 milhões de pessoas passarão fome aguda, somando-se aos quase 320 milhões de pessoas que enfrentam a fome em todo o mundo.Cerca de 30% dos fertilizantes do mundo são transportados através do estreito de Ormuz e, com a época de plantação a aproximar-se em zonas como a África Oriental e o sul da Ásia, os pequenos agricultores dos países pobres poderão ser duramente atingidos.