IPMA quer conhecer a fundo atividade da "pequena pesca" para gerir melhor recursos naturais

27 de mar. de 2021, 13:09 — Lusa /AO Online

A intenção é conhecer a fundo a atividade da denominada "pequena pesca”, feita por embarcações com menos de 12 metros, que representam “80% da frota nacional” e da qual pouco se sabe, disse à Lusa o coordenador do projeto Montereal, Miguel Gaspar, adiantando que se trata de "informação essencial para gerir não só a frota, mas também os recursos e todo o ecossistema”.O projeto Montereal (acrónimo para monitorização em tempo real) teve início há cerca de 10 anos e pretende colmatar a falta de informação sobre os locais onde operam as pequenas embarcações, sobre os seus principais pesqueiros e saber como se distribui em termos espaciais e temporais o esforço de pesca, com custo zero para os pescadores.A bordo das embarcações foi colocado equipamento que reporta a sua localização a cada 30 segundos e transmite também informação que, "através de algoritmos desenvolvidos pelos investigadores", permite criar padrões de caracterização da atividade em curso.Se a informação sobre localização permite saber onde a embarcação está a pescar, "o padrão de velocidade da embarcação permite aferir qual a arte de pesca que está a ser usada, uma vez que algumas embarcações podem operar várias artes ao longo do ano”, disse Miguel Gaspar, adiantando que a informação transmitida permite igualmente saber se as embarcações estão a 'calar' (lançar artes de pesca) ou a 'alar' (recolher para bordo).Neste momento o projeto Montereal monitoriza, 83 embarcações da frota da ganchorra - arte utilizada na captura de bivalves - entre Vila Real de Santo António e Matosinhos, no que se tornou uma obrigatoriedade legal desde 2015, com as associações de pescadores a assumirem o pagamento das comunicações.Miguel Gaspar disse que os equipamentos de monitorização foram colocados a bordo inicialmente apenas para “fins científicos”, mas “com o tempo os pescadores entenderam quão benéficos poderiam ser para proteger o bem de todos e querem agora que sejam usados para controlo, obrigando todos a respeitarem as regras”.O investigador do IPMA avançou que “mais 200 aparelhos devem ser colocados em breve em outras artes de pesca pelo país e dentro de dois anos em mais 300 a 400 embarcações, o que vai permitir conhecer o padrão de atividade de várias artes de pesca, sem ter de cobrir todos os 3.000 barcos da pequena pesca".A informação recolhida diariamente da frota da ganchorra já permitiu elaborar mapas de “distribuição do esforço de pesca”.“Conseguimos relacionar essa informação com as espécies que estão a pescar, ao cruzarmos com as descargas em lota e com isso identificar os bancos que (os pescadores) foram explorando ao longo do tempo”, explicou o biólogo.Com quase uma década de dados recolhidos, Miguel Gaspar disse que os investigadores já sabem que, das quatro espécies com valor comercial, “o lingueirão é a que leva mais tempo a recuperar devido à fragilidade da concha”, tendo os bancos de pesca “sido esgotados em 1996“ e só agora “a recuperar para níveis que podem vir a ser explorados novamente”.As outras espécies comerciais de bivalves - conquilha, ameijoa branca e ameijoa pé-de-burrinho – “recuperam facilmente de um ano para o outro, já que efetuam desovas muito grandes”, podendo, no entanto, haver “flutuações naturais” em alguns anos, disse.Miguel Gaspar destacou que o projeto permite ainda tirar ilações sobre "zonas onde houve pesca e depois deixou de haver, significando que o banco (pesqueiro) deixou de ter uma abundância que justifique a atividade. Se no ano seguinte os pescadores voltarem significa que ao fim de um ano o banco recuperou”, realçou.As campanhas de pesca anuais de monitorização dos bancos de bivalves realizadas pelo IPMA permitem “validar os dados” e saber “o que há, onde há e relacionar com o esforço de pesca”, conhecimento que o projeto Montereal pretende agora alargar a outros tipos de pesca, concluiu.