Investigadores simulam ambiente lunar numa gruta nos Açores
17 de nov. de 2023, 09:36
— Carina Barcelos/Lusa/AO Online
“É
uma equipa incrível e foi uma viagem fantástica para conseguirmos 'voar
até à Lua, alunarmos' e finalmente estarmos aqui durante uma semana. E
vamos lá ver se chegamos todos em segurança à Terra”, avança, em
declarações à Lusa e à Antena 1, a comandante da missão Camões e
investigadora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores
Tecnologia e Ciência - INESC TEC, Ana Pires.É
enquanto alguns turistas descobrem a gruta, que passa por baixo da
Lagoa do Negro, no interior da ilha Terceira, que Ana Pires explica como
será criado um ambiente lunar para acolher a missão, que vai decorrer
entre 22 e 28 de novembro.A temperatura
está a 17 graus, do teto caem pingos de água, que se acumulam em poças
no chão formado pela lava. Em breve, a gruta será encerrada ao público e
as luzes serão desligadas.Dois
geocientistas, um geofísico, uma astrobióloga, um explorador, uma
especialista em fatores humanos e clima e um psicólogo vão dividir-se
por três estações, onde serão montadas tendas.Durante sete dias estarão isolados na gruta e só subirão à receção para refeições, higiene e um acesso breve à internet.Com
a colaboração de outros 10 investigadores, vão realizar 14
experiências, com recurso a drones, sensores e outras tecnologias, na
esperança de recolher dados que possam partilhar com a comunidade
científica internacional.“Vamos passar
aqui 24 horas por dia. Portanto, vamos ter imenso tempo para
descobrirmos muitas coisas. Estamos ansiosos por perceber que histórias é
que esta gruta tem para nos contar”, adianta a comandante da missão.Mais
do que estudar a gruta, a missão pretende comprovar se é possível viver
dentro de uma estrutura com características que se assemelham a um
ambiente lunar.“Vamos, no fundo, tentar
perceber se de facto um verdadeiro astronauta conseguiria viver neste
tipo de ambiente e qual é o resultado final que poderá servir para dar
pistas um dia para as verdadeiras missões. O que é que uma estrutura
geológica deste tipo precisa para que um astronauta consiga viver aqui”,
explica Ana Pires.Os geocientistas, por
exemplo, vão tentar descobrir o que poderá estar por detrás das paredes
da gruta, recorrendo à tecnologia ótica de deteção remota Lidar enquanto
a astrobióloga vai recolher amostras de organismos vivos.Yvette
González, diretora executiva da missão e investigadora Universidade de
Plymouth, nos Estados Unidos, vai estudar os fatores humanos e a empatia
ambiental.“Enquanto humanos, acreditamos
que vivemos em reciprocidade com a Terra? E o que é que isso quer dizer
para viver na Lua ou em outro planeta? Será que olhamos à volta e ainda
nos sentimos ligados a este tipo de natureza? Lá fora olhamos para uma
árvore, para um pássaro, mas aqui será que olhamos para a gruta e nos
sentimos ligados para a protegermos, para viver aqui a longo prazo?”,
questiona.Uma das vertentes que a
investigadora vai estudar é até que ponto a sensação de tomar um duche
pode manter o "astronauta" mais confortável e contribuir para a sua
saúde mental.Yvette encontrou na Internet
um equipamento inovador, desenvolvido na Austrália, que permite tomar
duche sem eletricidade. Um dos criadores era português e ao descobrir
que a missão seria nos Açores ofereceu os chuveiros portáveis.A
equipa levará também para a Gruta do Natal um equipamento desenvolvido
no Japão, utilizado por astronautas, para fazer exercício físico num
espaço confinado.Os fatos que serão
utilizados, uma mistura entre um fato de espeleologia e um fato de voo,
foram criados especialmente para a missão pela empresa da engenheira
aeroespacial norte-americana Sabrina Thompson. Por baixo, vão usar roupa
interior e t-shirts, com têxteis inteligentes, desenvolvidos pela
investigadora portuguesa Filipa Fernandes.Ao
todo, contando com a missão de controlo e com a equipa médica, que
acompanham a missão no exterior, o projeto Camões deverá envolver cerca
de 30 pessoas. O núcleo duro é composto por 11 pessoas de cinco países,
que falam oito línguas.No apoio à missão,
que contou com apoios públicos regionais, estarão a associação Os
Montanheiros, que gere a Gruta do Natal, mas também a Proteção Civil dos
Açores e a Cruz Vermelha.“Eu sinto que
estamos todos a contribuir para esta missão e sinto que a comunidade da
ilha Terceira se juntou para que tenhamos sucesso”, sublinha Ana Pires.