Investigadores questionam povoamento dos Açores antes da chegada dos portugueses
24 de jan. de 2022, 16:27
— Lusa/AO Online
Na
revista científica PNAS, o grupo, liderado por Rui Bento Elias (da
Universidade dos Açores), argumenta que “não existem evidências
suficientes para concluir que o proposto povoamento Viking tenha causado
ampla perturbação da ecologia e da paisagem nos Açores, antes da
chegada dos portugueses”, refere-se numa nota de imprensa enviada à
Lusa.“Com base nas informações
disponíveis, não negando a possibilidade de presença humana anterior,
argumentamos que não existem evidências sólidas que suportem a
existência de alterações antropogénicas de larga escala, causadas por
povoadores pré-portugueses”, referem os especialistas das Universidades
dos Açores, Austrália, Lisboa, Munique e Madeira.O
artigo reavalia o hipotético povoamento Viking do arquipélago dos
Açores antes da chegada dos portugueses – particularmente a ideia de
impactes ecológicos proposta pelo estudo internacional divulgado em
outubro.Aquela investigação, que contou
com a participação de investigadores do Centro de Investigação em
Biodiversidade e Recursos Genéticos - Açores (CIBIO), detetou presença
humana nos Açores 700 anos antes da chegada dos portugueses.Também
publicada na revista PNAS, a investigação conclui que as primeiras
evidências de presença humana nas ilhas foram detetadas 700 antes da
chegada dos portugueses no século XV, nomeadamente à ilha de Santa Maria
em 1427 e às ilhas do Corvo e das Flores em 1452.Agora,
grupo de investigadores liderado por Elias propõe “uma interpretação
diferente para os dados apresentados” pelos autores do estudo,
“apresentando explicações alternativas a um hipotético povoamento
anterior à chegada dos portugueses”. “Esta
análise e reinterpretação é apoiada em estudos realizados nas ilhas das
Flores e do Pico, que não mostram qualquer evidência de povoamentos
anteriores”, bem como “nas numerosas descrições históricas de florestas
intocadas em várias ilhas do arquipélago, aquando da chegada dos
portugueses”, refere-se na nota de imprensa.Por
outro lado, os investigadores apontam a “ausência de evidências
arqueológicas de ocupação humana generalizada anterior ao povoamento
empreendido pelo Reino de Portugal”. Considerando
ter sido dado “um importante contributo para entender as mudanças
ambientais nos Açores” pelo estudo divulgado em outubro, os
investigadores sustentam que “as evidências apresentadas não são
suficientes para provar que humanos modificaram os ecossistemas dos
Açores antes do povoamento português”.Na
nota de imprensa, refere-se que um “dos principais argumentos utilizados
no estudo de Raposeiro e colaboradores, é a presença de carvão nos
sedimentos, que seria um sinal da queima de madeira e consequente
desflorestação em torno destas lagoas”. “Se
o carvão tivesse origem na queima das florestas pelos hipotéticos
povoamentos anteriores à chegada dos portugueses, a presença de carvão
seria acompanhada pela diminuição da abundância do pólen das espécies
arbóreas. No entanto, na Lagoa do Caldeirão do Corvo, foi detetado
carvão desde o séc. IX, com maior frequência entre o 1000 e 1300 EC [Era
Comum], mas a percentagem de pólen de espécies arbóreas só apresenta
uma diminuição de forma substancial e definitiva, no período português”,
referem.Para os especialistas, “o facto
da presença de carvão não ser, de uma forma consistente, acompanhada por
uma diminuição clara do coberto arbóreo impede a utilização deste
indicador de forma fiável”.Quanto às
mudanças na vegetação, sublinham que “poderão ter origem natural, devido
à ocorrência de erupções vulcânicas, fortes tempestades ou
deslizamentos de terras”.“No que respeita
aos marcadores fecais da presença de gado e de populações humanas,
também são encontrados […] nas fezes de aves”, alertam.