Investigadores do IPO do Porto criam prótotipo de vacina para tratamento do cancro
25 de jun. de 2024, 08:47
— Lusa
Em declarações à Lusa, o
investigador José Alexandre Ferreira esclareceu que o protótipo da
vacina desenvolvido resulta de mais de uma década de trabalho. Os
investigadores começaram por tentar perceber as alterações de padrões
de glicosilação, isto é, como é que os açúcares que cobrem as células se
alteram com o cancro e com a progressão da doença. “Identificámos
que as células tumorais mais agressivas, num conjunto de tumores,
perdem a capacidade de expressar estes açúcares mais complexos e
exuberantes, passando a expressar açúcares imaturos e muito mais
simples”, referiu o especialista do grupo de Patologia e Terapêutica
Experimental do CI-IPOP. Esta descoberta
foi o “ponto de partida” do trabalho que, posteriormente, tentou
identificar que proteínas estavam associadas a estes açúcares e entender
a sua função biológica. “Achamos que
seria interessante criar ferramentas para ensinar o sistema imunológico a
responder a células que tinham estas alterações de glicosilação, que
são células muito envolvidas no processo de agressividade da doença e de
disseminação”, contou. A investigação passou entretanto por uma série de etapas, culminando no protótipo de vacina, entretanto já patenteado. Cerca
de 80% dos tumores sólidos, tanto em fases iniciais como muito
avançadas, expressam estas alterações, "o que significa que o espetro de
aplicação é muito grande". Esta alteração nos açúcares foi também
identificada nas metástases."Temos
evidências que se pode encontrar estes padrões de glicosilação em
tumores de bexiga, gástricos, colorretal, mas muitos outros", elencou. Neste
momento, a vacina encontra-se em fase pré-clínica, tendo já sido
testada ‘in vitro’ e ‘in vivo', nomeadamente, em ratinhos.“O
objetivo era perceber se conseguíamos induzir uma resposta imunitária
segura, específica e capaz de reconhecer células tumorais”, referiu,
dizendo que os resultados validaram a eficácia da vacina. A
par de permitir gerar anticorpos que reconhecem as células tumorais, a
vacina demonstrou “criar alguma memória imunológica, o que abre portas
para pensar numa proteção contra a recidiva”. Apesar
dos “resultados promissores”, continuam por superar alguns desafios
antes da aplicação clínica, sobretudo relacionados com o ambiente
imunossupressor induzido pelos tumores mais agressivos.A
equipa está já a explorar novas moléculas para aumentar a resposta
imunitária e a combinar a solução com terapias já existentes. "É
importante que as pessoas percebam os avanços que estão a ser feitos,
mas também é importante ressalvar que este é um processo longo de
validação para que depois a solução apresentada ao doente seja segura,
eficaz e uma mais-valia", acrescentou.Também
à Lusa, o coordenador do grupo de Oncologia Molecular e Patologia Viral
do centro de investigação, Lúcio Lara, salientou que serão necessárias
"provas e contraprovas" de que a vacina funciona, é útil, não prejudica
os doentes e "pode vir a ser uma boa arma". Só
depois de provado o resultado dos ensaios diante das autoridades
responsáveis "será possível desenhar um ensaio clínico", adiantou. "Temos
uma ideia de investigação que é lógica, temos todos os ingredientes
para que isto venha a funcionar, estamos na fase pré-clínica para
garantirmos que aquilo que esperamos vai ser a evidência que nos permite
avançar para a parte clínica", acrescentou. A
investigação contou com a colaboração de especialistas do Instituto de
Investigação e Inovação em Saúde (i3S), o Instituto de Ciências
Biomédicas Abel Salazar, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e
REQUIMTE - Laboratório Associado para a Química Verde.