Investigadores criam alimentos benéficos para a saúde a partir de resíduos do vinho
6 de nov. de 2017, 12:56
— Lusa/AO online
Um
alimento funcional "é um alimento ao qual se adiciona uma função
adicional, que neste caso está relacionada com a promoção da saúde ou a
prevenção de doenças, através da incorporação de um ou mais
ingredientes", explicou a investigadora Joana Oliveira, do Departamento
de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do
Porto (DQB-FCUP), responsável pelo projeto.No
projeto Vine&Wine Residues, a equipa pretende recuperar os
compostos fenólicos (que derivam do metabolismo secundário das plantas e
estão envolvidos no crescimento e na regulação da maturação dos frutos)
de diferentes resíduos agroalimentares provenientes da atividade da
vinha e do vinho, que são produzidos em grandes quantidades em Portugal.Nos
alimentos, esses compostos são responsáveis por algumas das suas
propriedades organoléticas, nomeadamente a adstringência (sabor), devido
à presença de taninos, e a cor, proveniente das antocianinas (pigmentos
vermelhos), explicou a investigadora, que também faz parte do
laboratório associado REQUIMTE LAQV.Os
compostos fenólicos aproveitados dos resíduos, continuou, serão depois
incorporados em alimentos como o iogurte, os sumos e os gelados, criando
assim novos produtos alimentares com benefícios acrescidos para a saúde
humana.A
equipa de investigação tenciona ainda transformar quimicamente as
antocianinas recuperadas do bagaço de uva em compostos azuis, que podem
ser utilizados pela indústria alimentar como corantes, em alternativa às
moléculas sintéticas. "Ao
longo dos anos, têm sido associados diferentes benefícios ao consumo de
compostos fenólicos para a saúde, devido às propriedades antioxidantes,
à capacidade de captar radicais livres, à prevenção da peroxidação das
lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e dos lípidos e à inibição da
agregação das plaquetas sanguíneas, que são os principais mecanismos
descritos na origem da arteriosclerose e das doenças cardiovasculares",
indicou.A
ideia para o aproveitamento dos resíduos da gerados durante a produção
do vinho para criar novos produtos benéficos para a saúde vai ao
encontro das diretivas da União Europeia para a gestão dos resíduos
agroalimentares presentes no programa Horizonte 2020, que passam por
reciclar, reutilizar e recuperar, acrescentou.Nas
diferentes fases do projeto, que iniciou em junho de 2016, os
investigadores já extraíram e caracterizaram os compostos fenólicos da
lenha da poda, do engaço e do bagaço de uvas e já transforma
quimicamente as antocianinas extraídas do bagaço de uva em pigmentos
azuis (designados portisinas e dímeros de piranoantocianina). "Neste
momento estamos a estudar a interação entre os compostos obtidos com
derivados de lenhina (outro composto fenólico), de modo a estabilizar a
cor dos pigmentos ou aumentar a solubilidade em sistemas aquosos, para
que a sua aplicação em matrizes alimentares seja possível", esclareceu
Joana Oliveira.Para
que estes compostos possam exercer uma função de acrescentado valor
para a saúde, serão também realizados ensaios de biodisponibilidade e da
sua estabilidade durante o processo digestivo, disse ainda.Deste
projeto fazem parte oito investigadores do REQUIMTE LAQV do DQB-FCUP,
dois do REQUIMTE LAQV da Universidade Nova de Lisboa e um da Unidade de
Investigação de Química Orgânica, Produtos Naturais e Agroalimentares
(QOPNA) da Universidade de Aveiro.