Investigadora portuguesa em projeto de 10ME que vai estudar doenças autoimunes
25 de out. de 2022, 16:46
— Lusa/AO Online
Em declarações à agência Lusa,
a investigadora Salomé Pinho afirmou que este é um projeto de
"sinergias" entre os diferentes investigadores e que o mesmo
visa "tentar desvendar uma questão clínica premente e urgente": a causa
para a perda de tolerância imunológica que caracteriza um elevado número
de doenças autoimunes. As doenças
autoimunes são doenças crónicas e debilitantes, podendo, em alguns
casos, ser incuráveis e de elevada incidência como a Artrite Reumatoide,
Lúpus Eritematoso Sistémico, diabetes juvenil (tipo 1), Doença
Inflamatória Intestinal e Esclerose Múltipla. A
tolerância imunológica é responsável por manter o sistema imunitário
equilibrado, "atacando" os agentes invasores e não reagindo contra os
próprios órgãos, tecidos ou células, mas quando esta tolerância se
perde, o sistema imunológico "reage de forma descontrolada e exagerada,
podendo causar algum tipo de doença autoimune". É precisamente no que
provoca a perda de tolerância do sistema imune e nos momentos-chave em
que tal acontece que os investigadores se vão focar. "O
nosso sistema imunológico tem como principal objetivo proteger-nos e
atacar os agentes patogénicos e infecciosos, mas a dada altura, por
alguma razão que ainda é desconhecida, existe incapacidade das nossas
células do sistema imunitário de distinguir o próprio do não próprio e,
de forma súbita, começam a atacar o nosso organismo", esclareceu Salomé
Pinho, líder do grupo "Immunology, Cancer & GlycoMedicine" do i3S. Nesse
sentido, ao longo dos próximos seis anos, os investigadores vão usar
como modelo de doença autoimune a Artrite Reumatoide, para
tentar perceber a "causa para a perda de tolerância imunológica",
nomeadamente, "quando, onde e porquê". "Vamos
estudar um mecanismo específico que são os glicanos, que consideramos a
chave e o interruptor para esta perda de tolerância", disse,
esclarecendo que esse interruptor pode estar nos glicanos (açucares)
presentes nas células B (linfócitos - células do sistema imunitário que
atuam na resposta inflamatória). "As
nossas evidências preliminares mostram que indivíduos que mais tarde
desenvolveram a Artrite Reumatoide começaram por ter uma modificação do
glicano nos linfócitos B", salientou Salomé Pinho, doutorada em Ciências
Biomédicas pelo Instituto de Ciências Abel Salazar (ICBAS). Destacando
que o projeto vai "completar o ciclo", debruçando-se desde a molécula
ao doente, Salomé Pinho esclareceu que vão ser usadas abordagens
fundamentais, mas também modelos animais e amostras de doentes com
Artrite Reumatoide. Designado
"GlycanSwitch", o projeto recebeu uma bolsa 'European Research Council
(ERC) Synergy Grant', atribuída pela Comissão Europeia no valor de 10
milhões de euros. Além de Salomé Pinho, o projeto conta com dois
cientistas do Centro Médico Universitário de Leiden (Países Baixos) e um
investigador da empresa Genos e da Universidade de Zagreb (Croácia). As
diferentes tarefas levadas a cabo no projeto vão "depender" de todos os
parceiros, sendo que o i3S será responsável pela aplicação e
desenvolvimento de modelos celulares e moleculares, assim como pela
experimentação animal. À Lusa, Salomé
Pinho, também docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
(FMUP) e do ICBAS, salientou que o objetivo final do projeto é
contribuir para a literatura, "identificando um mecanismo causador da
perda de tolerância imunológica". Identificado
esse mecanismo, tal pode vir a traduzir-se num "biomarcador de
diagnóstico precoce e uma nova estratégia terapêutica de interromper
essa mudança de resposta". Ainda que a
investigação se dedique à Artrite Reumatoide, os resultados do projeto
vão ser aplicados noutras doenças autoimunes. Salientando
que esta é a terceira vez que é atribuída uma ERC Synergy Grant a um
investigador português, Salomé Pinho afirmou que a mesma permite
"atingir o expoente máximo do reconhecimento mundial da excelência da
investigação e da ciência" desenvolvida. Mais
do que um reconhecimento individual, a investigadora reconheceu que
esta ERC representa "o reconhecimento coletivo do mérito da equipa", em
particular, do instituto da Universidade do Porto.