Investigador garante que Açores possuíram cerca de 40 unidades de transformação de chá
9 de ago. de 2019, 11:16
— Lusa/AO Online
O
responsável pela obra “História do Chá em São Miguel (século XIX)”, que
resulta de uma tese de doutoramento, salvaguarda que os Açores “nunca
possuíram grandes unidades de transformação”, comparando com as que
existiam em Moçambique ou na Índia, por exemplo.Contudo,
o historiador refere que a presença daquelas unidades de transformação
em todos os concelhos de São Miguel foi uma realidade, de forma
particular na Ribeira Grande.A única exceção era Vila Franca do Campo, onde apenas havia produção caseira de chá.Atualmente,
apenas persistem na ilha de São Miguel duas unidades de transformação
de chá, localizadas no concelho da Ribeira Grande: Porto Formoso e
Gorreana.Segundo Mário Moura, em São
Miguel, só a partir dos anos 1970 se consegue produzir chá “com
sucesso”, graças a proprietários como Ernesto do Canto, os irmãos André e
José Jácome e através da contratação de dois chineses pela Sociedade
Promotora da Agricultura Micaelense (SPAM).Mas
foi, “seguramente por via de uma segunda vaga” protagonizada por
Ernesto do Canto, que recrutou outros dois chineses de Macau ( Chon Sem e
Lan Sam), que se assiste ao arranque da atividade.Chegados
a Ponta Delgada, em 08 de dezembro de 1891, Lan Sam e Chon Sem foram
contratados como manipuladores de chá e, para Mário Moura, é a partir
dessa altura que tem início o arranque decisivo da produção de São
Miguel, através da exportação e venda local.O
historiador considera “ser errado” afirmar que o chá veio para
substituir o ciclo da laranja nos Açores, uma vez que esta era “mais uma
fonte de rendimento” a par de outras culturas como o tabaco e o ananás,
que já se exportava.Com o chá, Mário
Moura afirma que se ocupavam “terrenos pobres que eram utilizados de
forma residual por outros produtos agrícolas”, salvaguardando que “a
laranja, apesar da sua produção ter diminuído, continuou”. Para
o investigador, em termos económicos, “talvez seja mais interessante”
explorar o chá nos dias de hoje, por via da qualidade em detrimento da
quantidade, como se tratasse de uma “espécie de champanhe”, que se
“vende bem e a bom preço”, por exemplo na Alemanha.As
únicas produções de chá existentes estão concentradas junto às duas
unidades que resistiram, que se tornaram num ponto de atração turística,
concentrando milhares de pessoas num espaço onde é possível saborear o
produto a título gratuito.Nos últimos
tempos, o Governo dos Açores tem vindo a desenvolver um projeto com
recurso a chá branco dos Açores, na variante Índia, na ilha de São
Miguel, que visa contribuir para diversificar a agricultura da região.