Investigador diz que os Açores são “vassalos dos Estados Unidos”

Hoje 17:46 — Lusa/AO Online

Nós temos um constrangimento. Parece-me sempre que nós somos vassalos dos Estados Unidos”, apontou Aranda e Silva, referindo-se às relações entre o arquipélago e os norte-americanos a propósito da Base das Lajes, na ilha Terceira, durante uma audição na Comissão de Política Geral da Assembleia Legislativa dos Açores, reunida em Ponta Delgada.O investigador, natural de Luanda, mas “açoriano por afeição”, que é também escritor e antigo jornalista da agência Lusa, foi ouvido a propósito de uma proposta do deputado único da Iniciativa Liberal, Nuno Barata, sobre a importância da centralidade dos Açores na arquitetura e na defesa euro-atlântica, e aproveitou para criticar a falta de intervenção da delegação portuguesa nas reuniões da Comissão Bilateral entre os Estados Unidos e Portugal.“Muitas vezes, a delegação portuguesa vai para as reuniões bilaterais e leva coisa nenhuma”, lamentou Aranda e Silva, acrescentando que compete aos Açores dar um maior contributo para a defesa dos interesses do arquipélago nesses encontros internacionais, uma vez que, no seu entender, Portugal não estará a cumprir esse papel.Na sua opinião, está na altura dos políticos açorianos se juntarem, colocarem de lado as divisões politico-partidárias e criarem um grupo de trabalho que reúna num só documento as principais reivindicações e aspirações açorianas, que realcem a importância geoestratégica e geopolítica dos Açores no mundo.“Um grupo de trabalho que envolva políticos, economistas, empresários, professores universitários, e especialistas em geopolítica e geoestratégia, para elaborar um documento que sintetize as aspirações açorianas no contexto de Portugal, da Europa e do Atlântico”, frisou Aranda e Silva.Para o investigador em relações internacionais, esse documento, que devia reunir o maior consenso possível tanto no parlamento açoriano como no executivo regional, seria depois entreguem mão por uma delegação açoriana às principais figuras do país e também da União Europeia.“Deve, posteriormente, ser entregue por uma delegação ao Presidente da República, ao parlamento português, ao Primeiro-Ministro, ao ministro dos Negócios Estrangeiros e ao ministro da Defesa, mas também ao Parlamento Europeu e à Comissão Europeia”, insistiu.Nuno Barata, o proponente do projeto de resolução que recomenda a adoção de medidas com vista à valorização da centralidade dos Açores na arquitetura e na defesa euro-atlântica, considerou que os Açores vivem hoje numa permanente contradição.“Nós não podemos ser, por um lado, uma espécie de pobrezinhos da Europa, porque somos uma região ultra periférica, e, ao mesmo tempo, querermos afirmar a nossa centralidade atlântica”, advertiu o parlamentar liberal.Nuno Barata recomendou que o Governo dos Açores, liderado pelo social-democrata José Manuel Bolieiro, afirme, “de forma clara e consistente”, a centralidade estratégica dos Açores no quadro da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], da União Europeia e das relações transatlânticas, e elabore um Plano Estratégico Açores/Atlântico 2035, focado na segurança marítima, infraestruturas críticas, cooperação OTAN/UE e valorização económica da presença internacional.O deputado da IL defendeu também que o Governo da República promova a revisão do acordo bilateral com os Estados Unidos, crie um ‘Cluster Tecnológico de Segurança e Defesa’ e avalie a criação de um fundo de capital de risco com participação privada para apoiar 'startups' nas áreas da segurança marítima e tecnológica, entre outras medidas.