Investigações no mar profundo dos Açores revelam novas espécies
11 de jun. de 2024, 10:17
— Nuno Martins Neves
A descoberta de 15 espécies novas para a ciência é um dos feitos dos
mais de mil mergulhos realizados nos últimos anos pelo Grupo de
Investigação do Mar Profundo dos Açores (ADSR) do Okeanos - Universidade
dos Açores. Os resultados foram apresentados no Teatro Faialense,
na cidade da Horta, ilha do Faial, durante a comemoração do Dia Mundial
dos Oceanos.E o que permitiu estas descobertas nos últimos
anos?Segundo o documento do Okeanos a que o Açoriano Oriental teve
acesso, concorreram os investimentos feitos pela comunidade científica e
pelo Governo Regional dos Açores, em particular o desenvolvimento de um
veículo que permitiu superar as tradicionais dificuldades da
investigação no mar profundo, nomeadamente os elevados custos e a
necessidade de tecnologia de ponta.O aparecimento do Azor drift-cam,
um dispositivo de baixo custo e fácil manuseamento, possibilitou
explorar o mar profundo dos Açores.“Durante os últimos anos,
visitámos todas as 140 áreas dentro da Zona Económica Exclusiva (ZEE)
dos Açores com menos de 1000 m de profundidade, realizamos cerca de 1150
mergulhos - 930 dos quais com a Azor drift-cam-, exploramos cerca de
760 km de fundo e produzimos mais de 1300 horas de vídeo. Após meses de
trabalho de recolha de imagens no mar, o trabalho continua nas salas de
visualização, onde transformamos as imagens em dados. Esta informação
ajudou a produzir uma das mais completas base de dados sobre o mar
profundo com cerca de 82000 ocorrências de corais e esponjas -entre
outros taxa”, informa Telmo Morato, investigador principal do ADSR,
citado no documento.O impacto foi tal que só em 2023 foi conseguido
multiplicar por cinco a quantidade de informação existente sobre o mar
profundo, graças a cinco expedições científicas, que duraram quase 120
dias, com uma média de 551 pessoas/dia no mar.O Okeanos destaca,
ainda, as parcerias estabelecidas com as comunidades piscatórias
açorianas e com as instituições internacionais de investigação
científica que cruzam os mares do arquipélago, que contribuem para a
identificação do património natural do mar profundo açoriano e dos
organismos observados nos vídeos.Toda esta confluência de esforços
permite colocar Portugal e os Açores no topo das regiões do mundo com
mais informação sobre o mar profundo, revela o documento do Instituto de
Investigação em Ciências do Mar.Da recolha de informação, saiu a
reavaliação da diversidade total de corais de águas frias e esponjas nos
Açores, que atinge, hoje, as 470 espécies, bem como a descoberta de um
novo género e cerca de 15 espécies novas para a ciência, sendo
assinalado que muitas mais haverá por descobrir. Para o Okeanos, o
mar profundo dos Açores, até aos 1000 metros de profundidade, é
classificado como um “hotspot de biodiversidade oceânica, às escalas do
Atlântico e global”. Pesca de profundidade deve ser regulamentadaDe
acordo com Telmo Morato, as recentes descobertas apontam que a Dorsal
Meso-Atlântica - a cordilheira submarina que atravessa o oceano
Atlântico, entre os dois polos - suporta mais vida e diversidade do que
estudos anteriores indicaram.No mar profundo dos Açores foi
encontrado aquela que poderá ser o maior jardim de corais negros do
Atlântico. Estes jardins de corais negros, que podem atingir os milhares
de anos de vida, são comparáveis às floresta de sequoias, as árvores
mais antigas do planeta.Foram ainda detetados recifes de corais
duros, importantes reservatórios de carbono e que desempenham um papel
fundamental na mitigação das alterações climáticas.“Contudo, é digno
de nota que certas colónias de corais de vida longa apresentaram sinais
evidentes de impactos da pesca. Estas observações in situ alinham-se
estreitamente com as conclusões de estudos anteriores, reforçando a
noção de que práticas de pesca de profundidade devidamente
regulamentadas, especialmente aquelas que utilizam artes de anzol, como
as linhas de mão, são promissoras para promover a exploração sustentável
dos recursos de profundidade”, aponta Telmo Morato.Por outro lado, a
proibição da pesca de arrasto dentro da ZEE dos Açores, em vigor desde
2005, teve impacto positivo nos peixes-relógio e escamudas.“Só podemos proteger e gerir aquilo que conhecemos”Presente
na apresentação do relatório final produzido pelo Okeanos, o presidente
do Governo Regional dos Açores destacou a importância do trabalho
desenvolvido para o futuro.“Só podemos proteger e gerir aquilo que
conhecemos. A gestão do espaço marítimo, nas suas múltiplas vertentes,
só é, pois, possível conhecendo-o de antemão e caracterizando-o em
profundidade”, afirmou José Manuel Bolieiro.Um trabalho possível graças ao investimento conjunto entre o Governo dos Açores e a comunidade científica, assinalou.“Com
um investimento de 2,6 milhões de euros, a informação recolhida no
estudo permite avaliar o bom estado ambiental e o ordenamento do espaço
marítimo, contribuindo com conhecimento para suportar uma gestão efetiva
do Mar dos Açores”.Bolieiro reforçou o apelo a todos os parceiros,
desde a comunidade científica às entidades internacionais, passando
pelos pescadores açorianos, para que continuem a trabalhar em conjunto,
pois assim “materializam a ideia de que juntos conseguimos ir mais
longe”.