Investigação deteta falhas e falta de supervisão na manutenção
Acidente/Elevador
20 de out. de 2025, 17:47
— Lusa/AO Online
O acidente com o elevador da Glória, ocorrido a
03 de setembro, causou 16 mortos e cerca de duas dezenas de feridos,
entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades.No
relatório preliminar do acidente, divulgado e a que a Lusa teve
acesso, o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com
Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) diz que as inspeções
previstas para o dia do acidente “estão registadas como executadas,
embora detenha evidências de que não foram feitas no período horário
indicado na correspondente folha de registo”.“Durante
o período de operação do ascensor por várias vezes um trabalhador do
prestador de serviços observou os veículos e falou com os
guarda-freios”, refere a investigação, dando conta da existência de um
plano de manutenção diária, semanal, mensal e semestral.Segundo
os investigadores, “embora as ações de manutenção contratualmente
previstas e planeadas estivessem a ser registadas como cumpridas em
sistema de registo próprio, ao qual a Carris tem acesso direto, foram
recolhidas evidências de que tal registo não corresponde às tarefas que
efetivamente foram executadas”.“Há
evidência de execução de tarefas críticas de forma não padronizada com
parâmetros de execução e validação díspares”, lê-se no relatório
preliminar.O GPIAAF conta que, no dia do
acidente e no anterior, o cabo não foi observado no fosso, nem tal
estava previsto nos procedimentos de manutenção, “embora o caderno de
encargos seja contraditório em relação a este aspeto específico”.“A
lubrificação do cabo, prevista com periodicidade semanal, está
registada como tendo sido realizada em 28 de agosto. A inspeção mensal
ao cabo está registada como tendo sido realizada em 1 de setembro”,
constataram os investigadores.De acordo
com GPIAAF, “o local do cabo onde este se rompeu não era passível de ser
observado em qualquer destas inspeções”, sublinhando que, nesta fase,
não é possível concluir “se algum indício de anomalia no cabo poderia ou
não ser observado algum tempo antes da rotura na parte visível junto ao
trambolho [ponto de fixação do cabo]”.Há mais de 20 anos que a manutenção do ascensor da Glória está contratada pela Carris a um prestador de serviços.A manutenção é assegurada pela mesma empresa desde 2019, contando com um corpo de cinco trabalhadores, à data do acidente.“O
processo de formação dos cinco técnicos, com experiências a variar
entre os 11 anos e os 8 meses na empresa, é assente em passagem de
conhecimento prático em ambiente de trabalho, sem recurso a ações de
formação teórica ou cursos técnicos específicos nos vários equipamentos
intervencionados sob os contratos vigentes”, refere o GPIAAF.O
conhecimento “foi sendo passado ao longo dos anos dos técnicos da
Carris para os executantes do prestador de serviços e destes em
sucessão”.Os procedimentos de execução
(normas), desenhados pela Carris, “há já largos anos que não sofreram
qualquer atualização nem o prestador de serviços conta com o necessário
corpo de engenharia com o conhecimento técnico especializado em
funiculares e meios para o desenvolvimento, atualização e adaptação das
ações de manutenção à realidade da operação”.“Não
há, por parte do quadro técnico do prestador de serviços de manutenção,
no que respeita ao modo específico de execução dos trabalhos, qualquer
orientação aos trabalhadores ou supervisão, a qual é feita pela
fiscalização da Carris”, frisa o GPIAAF.O
sistema de qualidade do prestador também não assegura o “levantamento de
fragilidades ou a identificação de oportunidades de melhoria com foco
nas suas atividades de manutenção, estando voltado maioritariamente para
as questões de higiene e segurança no trabalho”.