Invasão do Capitólio choca América e revela profundas divisões
EUA/Eleições
7 de jan. de 2021, 13:04
— Lusa/AO Online
A invasão ocorreu na
quarta-feira à tarde, quando decorria a sessão de ratificação dos votos
das eleições presidenciais dos EUA, que foi interrompida devido aos
distúrbios.Enquanto a polícia recolhia os
congressistas para um refúgio de segurança subterrâneo, salas e
escritórios foram vandalizados. Nos confrontos com a polícia houve
vários feridos e quatro pessoas morreram. A
Polícia do Congresso foi rapidamente reforçada por unidades de
intervenção do FBI e da Polícia Metropolitana, procedendo a detenções e
expulsando os manifestantes, que continuaram a manifestar-se no
exterior.Mas o objetivo político dos
extremistas foi atingido. Interromperam os trabalhos de certificação dos
resultados do Colégio Eleitoral pelo Congresso e levaram à América e ao
mundo imagens do extremismo a sobrepor-se à democracia. Estes
graves confrontos revelam que o incitamento à insurreição pelo
presidente Trump está a causar profundas divisões internas, no Partido
Republicano e na própria equipa presidencial. O
vice-presidente Mike Pence disse aos manifestantes: “Vocês não
ganharam. A violência nunca vence. A liberdade vence. E esta é a casa do
povo. Vamos voltar ao trabalho’. Outro
republicano que costumava apoiar Donald Trump, o líder da maioria no
Senado Mitch McConnell, afirmou: “Não seremos mantidos fora desta câmara
por bandidos, bandos de arruaceiros, ou ameaças. Tentaram impedir a
democracia, mas falharam”.A Casa Branca
manteve-se estranhamente silenciosa perante a gravidade dos
acontecimentos, o que levou o vice-presidente a assumir a coordenação
das operações de segurança entre o Departamento de Defesa, Departamento
da Justiça e os líderes do Senado e Câmara dos Representantes para
garantir a segurança no Capitólio e reiniciar os trabalhos do Congresso.A
líder da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, reforçou:
“Houve um ataque vergonhoso à nossa democracia. Foi instigado ao mais
alto nível do Governo, mas o Congresso avançará esta noite com a
certificação da vitória de Joe Biden”. No
exterior das instalações do Capitólio, o reforço policial engrossou com o
anoitecer e os apoiantes de Donald Trump foram progressivamente
afastados dos relvados e praças do Congresso.Receando
que os radicais se espalhassem pela capital, a presidente da Câmara de
Washington, Muriel Bowser, declarou o recolher obrigatório a partir das
18:00 (23:00 em Lisboa).De imediato, as
cidades vizinhas nos estados de Maryland e Virgínia adotaram a mesma
medida de segurança, encerrando a circulação de pessoas em toda a área
metropolitana da capital. O Presidente eleito, Joe Biden, veio a público declarar que o que se passou no Capitólio “não é um protesto, é uma insurreição”.E
porque defende uma América mais envolvida com a comunidade
internacional e liderando as causas da democracia disse: “As ações de um
bando de extremistas não refletem a verdadeira América. A nossa
democracia está sob um ataque sem precedentes. O mundo está a assistir”.
Os trabalhos de certificação da votação
do Colégio Eleitoral pelo congresso recomeçaram pelas 20:00 e
prolongaram-se pela noite dentro. Mas o sentimento de choque domina os
mais variados setores da vida política americana, incluindo os
conservadores.O antigo Presidente George
W. Bush, em linguagem dura, classificou os protestos de “insurreição,
incentivada ao longo de meses pelo Presidente”.O
atual senador Mitt Romney, que já foi governador de Massachusetts e
mantém boas ligações com os luso-americanos, disse no reinício dos
trabalhos: “É uma vergonha o que aconteceu, mas a democracia venceu.
Vamos acabar com isso e apoiar o novo Presidente”. Um
sentimento que acabou por influenciar a decisão de alguns legisladores
republicanos de retirar objeções formais que planeavam apresentar,
alegando irregularidades no processo eleitoral.A
congressista republicana Cathy Rodgers, importante membro da Comissão
de Energia e Comércio, foi a primeira a anunciar que não faria objeções
aos resultados do Colégio Eleitoral.“O que
aconteceu hoje é vergonhoso e anti-americano. Bandidos assaltaram o
Capitólio, invadiram e vandalizaram o edifício, colocaram a vida de
pessoas em perigo e desprezaram os valores que, como americanos,
consideramos fundamentais. A todos os envolvidos, tenham vergonha!”,
disse a congressista Rodgers.Cathy Rogers
apelou ainda a “uma transferência pacífica de poder”: “A única razão
para a minha objeção era dar voz à preocupação de que governadores e
tribunais mudaram, unilateralmente, os procedimentos eleitorais sem
consultar o povo e fora do processo legislativo. Mas o que vimos hoje é
ilegal e inaceitável. Decidi votar a favor dos resultados do Colégio
Eleitoral e recomendo que Donald Trump condene a violência e acabe com
esta loucura”.Os trabalhos do congresso
chegaram à fase final e começou a leitura ritual das votações de cada
estado, pelos representantes do Colégio Eleitoral, para Presidente e
Vice-Presidente dos EUA. Dos cinquenta estados, houve duas objecções,
uma do representante do Nevada e outra do representante da Pensilvânia. A
cada objeção seguiu-se o estipulado período de discussão, finalizado
com votação dos legisladores. Ambas as objeções foram derrotadas. Após
um dia de caos, que fica na história americana a manchar a imagem de
‘farol da democracia’, pouco antes das 04:00 de hoje (09:00 em Lisboa)
cumpriu-se uma tradição com mais de 130 anos.O
vice-presidente, Mike Pence, como presidente do Senado, certificou que
Joe Biden recebeu 306 votos para Presidente dos Estados Unidos contra
232 para Donald Trump.