Instituto de Investigação em Vulcanologia dos Açores analisa emissão de gases na ilha Terceira
11 de nov. de 2025, 18:04
— AO Online/Lusa
“Independentemente de estarmos em V3 ou em V0,
estes dados são sempre importantes. São dados que nos permitem definir o
padrão de normalidade para o sistema vulcânico, neste caso o Pico Alto.
É ele que nos diz se, no momento atual, o sistema está estável ou não”,
explicou aos jornalistas a vulcanóloga Catarina Silva.A
recolha de amostras ocorre numa altura em que o vulcão de Santa Bárbara
está em nível de alerta vulcânico V3, que significa “sistema vulcânico
em fase de reativação”.Desde junho de 2022
que a atividade sísmica no vulcão de Santa Bárbara se encontra “acima
dos valores normais de referência”, tendo o evento mais energético
ocorrido em 14 de janeiro de 2024, com magnitude de 4,5 na escala de
Richter.O nível de alerta vulcânico esteve
em V3 entre junho e dezembro de 2024, mas desde então mantinha-se em
V2, que significa "sistema vulcânico em fase de instabilidade".Na
semana passada, voltou a subir para V3, "face ao incremento da
atividade sísmica", com uma “tendência crescente relativamente ao
observado nos primeiros meses deste ano” e ao facto de, "embora pouco
intensa", se continuar a registar "deformação crustal na área onde se
desenvolve a crise sismovulcânica”.A
emissão de gases é um dos indicadores avaliados pelo IVAR e pelo Centro
de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA), que
acompanham diariamente a evolução do vulcão de Santa Bárbara.A
recolha de amostras já estava, no entanto, agendada antes de o Gabinete
de Crise do CIVISA/IVAR ter decidido elevar o nível de alerta de V2
para V3, na passada quinta-feira.“É um
trabalho que fazemos de rotina. A cada três meses vimos cá e fazemos
amostragem das fumarolas”, explicou a investigadora do IVAR.Entre
períodos de chuva e algumas abertas, Catarina Silva e a colega Lucía
Moreno desceram os passadiços das Furnas do Enxofre para recolher
amostras de emissões de gases, enquanto vários turistas percorriam o
trilho e tiravam fotografias numa das principais atrações
paisagísticas da ilha.“Usamos ampolas de
vidro e aprisionamos as emissões que estão a ser libertadas pelas
fumarolas, essencialmente vapor de água, dióxido de carbono, sulfureto
de hidrogénio”, explicou Catarina Silva.As
amostras ainda terão de ser analisadas no laboratório do IVAR na ilha
São Miguel e os resultados, que deverão demorar um a dois dias, serão
depois comparados com os valores de referência.“Até
ao momento nunca detetámos anomalias em nenhuma das amostragens que
fizemos aqui nas Furnas do Enxofre”, referiu a investigadora.Ainda
que desta vez os dados indiquem alguma anomalia, terão de ser cruzados
com outros indicadores antes que seja decidida alguma alteração no nível
de alerta do vulcão de Santa Bárbara, explicou o coordenador do
gabinete de crise do CIVISA/IVAR, João Luís Gaspar.“Depende
do tipo de valores e de quais os gases que estamos a medir. As próprias
condições meteorológicas muitas vezes influenciam a forma como os gases
se libertam. Há que estudar todo esse contexto em que a amostragem é
realizada e as análises são efetuadas para se poderem tirar conclusões”,
disse.O gabinete de crise do CIVISA/IVAR
avalia o nível de alerta dos diferentes sistemas vulcânicos dos Açores
mensalmente, mas o acompanhamento dos diferentes parâmetros é diário.As
campanhas no terreno, como a de hoje, dão uma informação complementar,
no entanto, desde o início da crise sismovulcânica na ilha Terceira, as
estações permanentes não identificaram valores anormais ao nível dos
gases.“O CIVISA está a monitorizar em
permanência os gases na ilha Terceira, como noutros pontos do
arquipélago. Os dados que recebemos diariamente dos diferentes pontos de
monitorização não apresentam qualquer anomalia”, frisou João Luís
Gaspar.Além da recolha de amostras de
gases nas Furnas do Enxofre, o IVAR recolheu ainda amostras de água e
amostras de gases nos solos, em vários pontos da ilha.“Fazemos
outro tipo de estudos relacionados com os gases que têm por objetivo
medir a concentração e o fluxo de gás nos solos em vários pontos, porque
existe nos vulcões uma desgaseificação difusa e, medindo a libertação
de gases nos solos, podemos também detetar eventuais anomalias”,
avançou o coordenador do gabinete de crise.Segundo
João Luís Gaspar, estas campanhas são feitas com maior periodicidade
quando existem incrementos da atividade sísmica, “precisamente para
verificar se há alterações”.“Juntando as
análises químicas dos gases e das águas aos dados que temos da
sismologia e a da deformação crustal ficamos com um espetro de
informação mais alargada que nos permite depois tirar ilações sobre o
estado de atividade nos vulcões”, explicou.O
coordenador do gabinete de crise adiantou que a rede de estações de
monitorização na ilha Terceira foi reforçada nos últimos anos e já é
“bastante robusta”.“Especificamente em
torno do vulcão [de Santa Bárbara], temos instaladas várias estações
sísmicas, estações de GNSS [sistema de navegação por satélite] e
estações de gás permanente, quer de medição de fluxo, quer de
concentração. Estamos a medir, por exemplo, dióxido de carbono e radão”,
apontou.