Instituições culturais de 39 países instam Parlamento Europeu a defender liberdade artística
30 de nov. de 2024, 20:06
— Lusa
Na carta
aberta “Resistência Agora: Cultura Livre”, enviada à agência Lusa e
publicada hoje em vários meios europeus de comunicação social, as
instituições afirmam estar “alarmadas com os atuais desenvolvimentos na
política cultural em vários Estados-membros da União Europeia”.Como
exemplo, apontam a Hungria, onde o Governo liderado por Viktor Orban já
aplicou cortes orçamentais ao setor cultural, e a Eslováquia, onde
“estão a acontecer despedimentos por motivos políticos”, como no caso
"dos diretores do Teatro Nacional e da National Gallery”.A
Convenção Europeia de Teatro, a plataforma Prospero, a rede Opera
Europa, o Festival de Viena e a Associação Europeia de Festivais estão
entre os signatários. Em Portugal, são seis as instituições culturais
que se juntaram ao apelo internacional: o Teatro Nacional D. Maria II, o
Centro Cultural de Belém, o São Luiz Teatro Municipal, o Teatro do
Bairro Alto, a BoCA - Biennial of Contemporary Arts e o Teatro do
Noroeste.Os signatários da carta alertam
para o "nível quase absurdo em muitos Estados-membros” que "os ataques à
liberdade artística atingiram". Esta preocupação intensificou-se depois
de, no início de novembro, grupos ultranacionalistas terem invadido
violentamente a estreia de um espetáculo do ator e realizador
norte-americano John Malkovich, no Teatro Nacional Ivan Vazov, na
Bulgária.“No Teatro Nacional de Sófia, uma
peça com mais de cem anos, passada numa Bulgária ficcional, foi
apresentada na noite de estreia sem a presença de público, devido a
ataques de grupos ultranacionalistas, que impediram os espectadores de
entrarem no edifício”, relatam.Na Áustria,
o Partido Liberdade, de extrema-direita nacionalista, atualmente no
poder, “ameaça cortar o financiamento para a cultura ‘woke’- o que
significa para toda a Cultura, que não as organizações musicais locais”,
enquanto o Partido pela Liberdade dos Países Baixos, o Rassemblemnt
National de França e o Afd na Alemanha “estão a pressionar para que
sejam feitos cortes radicais no financiamento de todas as instituições
culturais que não sejam ‘tradicionais’ e ‘nacionais’”.As
instituições signatárias salientam que estes cortes “não são
aleatórios”, antes “revelam uma estratégia político-cultural
orquestrada, que visa o desaparecimento de uma cultura europeia
diversificada, e que tem vindo a crescer desde 1989”.“Durante
muitos meses, ou anos, e em alguns Estados-membros mesmo durante uma
década inteira, as instituições culturais têm sido sujeitas a uma
campanha política que restringe as liberdades de expressão e artística e
elimina tudo o que não está em conformidade com a linha política da
direita”, alertam.As instituições
consideram que “onde deixa de haver uma cultura aberta, apartidária e
transfronteiriça, acabará também por desaparecer o próprio projeto
europeu de unificação e de paz”.Manifestando-se
solidários com os artistas “que foram despedidos ou impedidos de
realizarem o seu trabalho”, e com as instituições culturais “encerradas
ou ameaçadas de encerramento”, os signatários da carta pedem aos
deputados do Parlamento Europeu que falem “sobre a grave ameaça a uma
política cultural europeia consistente” e “sobre os ataques, proibições,
despedimentos e cortes em cada Estado-membro”.Lembrando
que a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e o Plano de
Trabalho da União Europeia para a Cultura 2023-2026 “exigem a proteção
da liberdade artística”, os signatários instam os Estados-membros e as
instituições europeias “a cumprirem as suas responsabilidades para com
aqueles documentos”, e também a “criar ainda mais salvaguardas através
da implementação de uma ‘Lei Europeia da Liberdade Cultural’ como parte
do Estado de Direito”.Na apresentação da
carta aberta, em Estrasburgo, estiveram o diretor do Festival de Viena, o
encenador Milo Rau, o diretor exonerado do Teatro Nacional da
Eslováquia, Matej Drlicka, as representantes da Convenção Europeia de
Teatro Barbara Engelhardt e Heidi Wiley, e a ex-ministra francesa da
Cultura Catherine Trautmann.A lista de
signatários iniciais inclui mais de 200 representantes de instituições
como o Teatro Nacional de Praga, na Chéquia, o polaco Nowy Teatr, o
Berliner Ensemble, a Capela Estatal de Dresden e diferentes óperas
estatais, na Alemanha, o Teatro e a Ópera reais da Suécia, o Ballet e a
Ópera Nacional da Finlândia, o Teatro de La Monnaie, na Bélgica, a Opera
de Lyon, a Ópera de Lille e os festivais de Marselha e de Montpellier,
em França, o Teatro Nacional Emilia Romagna e o Teatro de Ravenna, em
Itália, a Tanzhaus de Zurique, na Suíça, o Battersea Arts Centre, no
Reino Unido, e o National Academic Drama Theater, da Ucrânia, somando
187 instituições de 39 países, incluindo todos os Estados-membros da
União Europeia.Instituições culturais de Argentina, Austrália, Canadá e Estados Unidos também subscreveram o apelo.Em
Portugal, são signatários desta carta o diretor artístico e o
presidente do Teatro Nacional D. Maria II, Pedro Penim e Rui Catarino,
respetivamente, a diretora artística do CCB, Aida Tavares, e o
administrador da Fundação CCB Delfim Sardo, a diretora executiva e o
diretor artístico do Teatro S. Luiz, Ana Rita Osório e Miguel Loureiro, o
diretor artístico do Teatro do Bairro Alto, Francisco Frazão, o diretor
da BoCA - Biennial of Contemporary Arts, John Romão, e Nuno J.
Loureiro, Ricardo Simões e Tiago Fernandes, do Teatro do Noroeste -
Centro Dramático de Viana.O encenador
Tiago Rodrigues, como diretor do Festival d'Avignon, e Cláudia Belchior,
como presidente da Convenção Europeia de Teatro, são outros portugueses
entre os signatários.A par desta carta
aberta, estará disponível, a partir de hoje, uma petição pública para
assinatura em
https://www.europeantheatre.eu/news/sign-the-open-letter-resistance-now-free-culture