Injeção de capital cria pressões no défice de 2019
Novo Banco
4 de mar. de 2019, 18:47
— Lusa/AO Online
A
meta do défice deste ano, de 0,2% do PIB, inclui “uma dimensão de
recapitalização do Novo Banco na ordem dos 400 milhões de euros”,
segundo disse o ministro das Finanças, Mário Centeno, em outubro ao
Jornal de Negócios.Contudo, na
sexta-feira, o Novo Banco indicou que vai pedir ao Fundo de Resolução
1.149 milhões de euros, o que significa que o valor que terá de ser
contabilizado será bem maior do que a estimativa do executivo.É
que os 400 milhões de euros de recapitalização prevista correspondem a
um encargo de 0,19% do PIB de 2019 (tendo em conta o PIB nominal de
209.322,181 milhões de euros inscrito no Orçamento do Estado deste ano) e
os 1.149 milhões de euros pedidos pelo Novo Banco correspondem já a um
encargo de 0,55% do PIB, o que pressiona as contas públicas.Assim,
a concretizar-se uma injeção de capital desta dimensão, esta terá de
ser compensada para não pôr em causa a meta do executivo.Ainda
na entrevista ao Jornal de Negócios, questionado sobre por que o
Governo apenas estimava uma recapitalização de 400 milhões de euros
quando já havia indicadores (e apenas referentes ao primeiro semestre do
Novo Banco) que apontavam para necessidades maiores, Centeno afirmou
que no segundo semestre de 2018 havia decisões, desde logo do ponto de
vista regulatório [como requisitos de capital do Banco Central Europeu],
que podiam “fazer reduzir esse valor”.Na
sexta-feira, essas dúvidas foram dissipadas e a expectativa saiu pior do
que o esperado pelo Governo, em linha com o que a imprensa vinha
avançando.O Novo Banco – a entidade que
ficou com ativos do BES na resolução deste em agosto de 2014 – anunciou
1.412 milhões de euros de prejuízos em 2018 (o quinto ano de prejuízos
consecutivos, ou seja, desde que foi criado) e o pedido ao Fundo de
Resolução de uma injeção de capital de 1.149 milhões de euros.No
ano passado, para fazer face a perdas de 2017, o Novo Banco já tinha
recebido uma injeção de capital de 792 milhões de euros do Fundo de
Resolução, valor que estará incluído no défice de 2018, que será
divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em 26 de março.Aliás,
em 13 de abril do ano passado, Mário Centeno disse, na conferência de
imprensa de apresentação do Programa de Estabilidade, que “o défice
previsto inclui a injeção de capital que o Fundo de Resolução poderá ter
de fazer no Novo Banco”.Ainda em abril,
em entrevista à rádio TSF, referindo-se aos 792 milhões de euros então
falados para recapitalizar o Novo Banco (depois concretizados), afirmou
que “esse é que vai ser o impacto no défice da intervenção do Fundo de
Resolução no Novo Banco”.Então, o Governo
estimava que o défice de 2018 ficasse em 0,7% do Produto Interno Bruto
(PIB), mas já no início de fevereiro Centeno anunciou no parlamento a
previsão do défice orçamental de 2018 para próximo de 0,6% PIB.Apesar
de o Fundo de Resolução beneficiar das contribuições dos bancos do
sistema (entre os quais o público Caixa Geral de Depósitos), é uma
entidade pública para fins estatísticos, pelo que o montante total que
injetar no Novo Banco deverá contar para o défice, e não apenas o
empréstimo que o Estado faça ao Fundo de Resolução para que este
recapitalize o Novo Banco.Segundo o
Orçamento do Estado para 2018, o Estado pode emprestar este ano até 850
milhões de euros ao Fundo de Resolução para recapitalização do Novo
Banco, sendo que o restante dinheiro virá das receitas do Fundo de
Resolução (resultantes das contribuições do bancos). Caso não seja
suficiente, o Fundo de Resolução terá de se financiar.A
Lusa questionou o Ministério das Finanças sobre o tema da
recapitalização do Novo Banco e o impacto no défice, mas até ao momento
não obteve resposta.O acordo feito aquando
da venda do Novo Banco ao fundo de investimento norte-americano Lone
Star, em outubro de 2017, prevê que o Fundo de Resolução injete até 3,89
mil milhões de euros no Novo Banco durante oito anos para fazer face a
requisitos regulatórios e perdas num conjunto de ativos.No
ano passado, para fazer face a perdas de 2017, o Novo Banco já tinha
recebido uma injeção de capital de 792 milhões de euros do Fundo de
Resolução, pelo que, a concretizar-se o valor pedido agora, as injeções
públicas ficarão em mais de 1.900 milhões de euros.O
Novo Banco, que ficou com parte da atividade bancária do Banco Espírito
Santo (BES) - resgatado no verão de 2014 -, é desde outubro de 2017
detido em 75% pelo fundo norte-americano Lone Star, sendo os restantes
25% propriedade do Fundo de Resolução bancário (entidade da esfera
pública gerida pelo Banco de Portugal).A Lone Star não pagou qualquer preço, tendo injetado 1.000 milhões de euros no Novo Banco.