Iniciativa WAVES reforça ligação entre a ciência e a sociedade
Hoje 10:50
— Rui Jorge Cabral
A iniciativa WAVES (Workshop on Advanced Vehicles for Exploration of the Seas) 2026 decorreu entre 8 a 11 de setembro em São Miguel, combinando preparação técnica, duas campanhas no mar e uma sessão pública dedicada à apresentação e discussão da investigação.Nas atividades no mar, que decorreram ao largo da Praia da Pedreira e do Ilhéu de Vila Franca, foram utilizados veículos operados remotamente (ROV), tendo como objetivos a deteção e observação de emissões de gases submarinos, na área da Geologia (ver peça na página 7) e a identificação de áreas onde as algas invasoras estão presentes, bem como a localização da ‘floresta’ de corais negros, uma espécie protegida e endémica, na área da Biologia.Em declarações ao Açoriano Oriental, Laura González García, coordenadora científica e técnica da empresa Futurismo, e investigadora do OKEANOS, afirma que um dos pontos fortes da iniciativa WAVES é precisamente o de “reforçar a colaboração existente e os possíveis pontos de ligação que temos entre os distintos centros de investigação e as empresas, para assim podermos trabalhar todos juntos na mesma direção”.Para Laura González García esta acaba por ser uma “experiência-piloto, onde se testaram distintas metodologias inovadoras e com distintos interesses, integrando vários grupos de investigação e assentando as bases para termos uma colaboração continuada, com vista a uma monitorização a longo termo”.Pôr a tecnologia ao serviço de quem precisaPor seu lado, Armando Mendes, do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade dos Açores e do grupo de investigação IS2E-LIACC, considera que a ideia desta iniciativa é a de “pôr a tecnologia ao serviço de quem precisa dela”.Um dos parceiros habituais desta iniciativa é o grupo de robótica marinha do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (CRAS INESC-TEC) da Universidade do Porto, mas curiosamente este ano, salienta Armando Mendes, “pela primeira vez o INESC-TEC não trouxe tecnologia do continente, uma vez que usámos só a tecnologia que já tínhamos aqui e pela primeira vez fomos autónomos”.E se nos Açores existem já veículos operados remotamente para realizar investigação submarina, questionado sobre que tecnologias gostaria de ver disponíveis para as instituições científicas dos Açores, Armando Mendes responde que “além destes ROV, que são aparelhos submarinos, mas operados com cabo, uma tecnologia que seria interessante era termos aparelhos autónomos”.Ou seja, “aparelhos que fizessem, por exemplo, varrimentos em determinadas áreas, com câmaras e com sonares, e que depois viessem à superfície e nos dessem as informações que guardaram nas suas memórias, e tudo sem intervenção humana, portanto, com um varrimento autónomo”, explica Armando Mendes.Conhecer melhor a alga invasoraUm dos trabalhos de investigação realizados durante a iniciativa WAVES deste ano esteve relacionado com a presença da alga invasora asiática em profundidades superiores a 40 metros, algo que nos Açores ainda não está estudado.Também em declarações ao Açoriano Oriental, João Faria, biólogo marinho no Departamento de Biologia da Universidade dos Açores e no CIBIO-Açores, explica que “sabemos que a alga está disseminada por toda a Região. Aqui em São Miguel, basicamente, encontramos a alga em todo o substrato rochoso em baixa profundidade, mas ainda não sabemos realmente definir o limite inferior. Apontamos sempre aos 40 metros porque, em boa verdade, é a profundidade a que nós conseguimos mergulhar”.Por isso e através do trabalho de investigação realizado ao largo do Ilhéu de Vila Franca, “o objetivo foi o de olharmos para os conhecidos recifes de coral negro que existem aqui e que são de uma importância ecológica muito grande e tentar perceber se a alga colonizou estes espaços e como é que se encontravam os corais”.E conforme conclui João Faria, “conseguimos ir a 55 metros de profundidade e não encontramos alga nos recifes de coral. Encontramos recifes saudáveis, com muita abundância de peixe e inclusive passou um Mero mesmo à nossa frente”. Mas o investigador salienta: “isto são resultados preliminares, o que implica que haja agora uma continuidade para podermos monitorizar toda aquela região”, uma vez que é possível a alga invasora sobreviver a maiores profundidades, pelo que é preciso investigar mais para ter a certeza se isso acontece ou não nos Açores.Por fim, José Cascalho, também professor do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade dos Açores, IS2E-LIACC, destacou a importância de testar as novas tecnologias disponíveis nos Açores.“O grupo da Biologia testou um pequeno ROV que adquiriu e que funcionou para os objetivos. E esse ROV, como é mais fácil de manipular e transportar, permite que os investigadores tenham maior independência relativamente à tecnologia mais complexa para resolver determinados problemas e satisfazer alguns objetivos científicos. E a mesma coisa aconteceu com o IVAR, que tem um ROV mais pequeno, mas com algumas valências diferentes e que vai permitir fazer alguma investigação já centrada em objetivos muito específicos”, concluiu José Cascalho.