Inéditos de Natália Correia em obra da investigadora Ângela de Almeida
26 de nov. de 2019, 20:00
— Lusa/AO Online
Ângela Almeida, cuja tese de
doutoramento, em 2005, versou justamente a vida e obra da poetisa -
nascida em 1923 na freguesia da Fajã de Baixo, em Ponta Delgada, ilha de
São Miguel - declarou à agência Lusa que a obra “Natália Correia – um
compromisso com a humanidade” pretende divulgar o “máximo possível” da
obra inédita e “dar voz” àquele perfil literário português.Ao
longo de 254 páginas, a investigadora pretende transmitir que Natália
Correia tinha um “pensamento muito importante” e “e era o que foi: uma
escritora comprometida com a humanidade”. Para
os leitores que serão confrontados pela primeira vez com a obra da
poetisa, a investigadora destaca o seu “caráter extremamente atual em
termos temáticos”, a par da “unidade temática e de estilo da sua escrita
entre o que foi publicado e que é inédito”.Ângela
Almeida refere que quando terminou o seu doutoramento “era
perfeitamente estranho levar a obra de Natália Correia a uma
universidade porque havia um certo ‘temor’ em relação à imensidão de
conhecimento daquela mulher”, a par do facto de, “muitas vezes, se fazer
uma leitura superficial e não interiorizada” da sua obra.“Ficava-se
pela imagem de uma figura que proporcionava algum espetáculo ou que
necessitava de algum efeito de plateia, que a terá utilizado,
eventualmente, para poder proclamar e ouvir as suas causas. Quem não
conhece a sua obra, de facto, e atreve-se a fazer comentários menos
próprios, é, de certa forma, uma ignorância atrevida, também. É preciso
primeiro ler a obra de um autor”, declara a escritora.Considerada
“uma das grandes vozes da segunda metade do século XX” da cultura
portuguesa e europeia, Natália Correia contribuiu, de acordo com a
investigadora, para a “defesa da condição feminina e todas as formas de
igualdade”, a par da defesa do ambiente, onde tinha “posições ecológicas
bastante relevantes”.Bateu-se pela
“defesa intransigente da paz” e do amor como “culto da humanidade
futura”, como escreveu, não como “conceito simplista mas sim como meio
para unir os apostos”.No prefácio da obra,
a estudiosa da obra da poetisa escreve que Natália Correia “escrevia
com o mundo no colo: as antinomias e as antíteses existenciais
ditaram-lhe uma escrita, lugar da alteridade utópica, onde os contrários
se fundiam, criando lagos do Absoluto, que então eternizava numa
'rêverie' poética, assente nesta constelação superior que é o amor,
enquanto via única que permite a ascensão”.Para
além de poetisa, Natália Correia foi deputada à Assembleia da
República, interveio politicamente ao nível da cultura e do património,
na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres, tendo sido
autora da letra do Hino dos Açores.Foi uma
figura ativa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo
participado no MUD - Movimento de Unidade Democrática, em 1945.Foi
condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da
“Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” por ser considerada
ofensiva dos costumes, e processada por ter tido a responsabilidade
editorial das “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria
Velho da Costa e Maria Teresa Horta, processo que ficaria conhecido
como “Três Marias”.Fundou em 1971, com
Isabel Meireles, o bar Botequim, onde durante as décadas de 70 e 80 do
século XX reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa. Apesar de ter nascido nos Açores, viveu toda a sua vida em Lisboa, vindo a falecer em 16 de março de 1993.