Indústrias de moldes e plásticos esqueceram a concorrência para ajudar empresas afetadas
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Hoje 10:44
— Lusa/AO Online
“Isto é um problema de todos,
porque se alguém perde um cliente, podemos nunca mais recuperar e ele
pode ir para outro país”, afirmou à Lusa Amaro Reis, presidente da
Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP), que terá a sua
empresa – Plásticos 88 em Ortigosa (Leiria) – a operar “quase a cem por
cento”, mais de um mês depois da destruição que atingiu a região de
Leiria e Marinha Grande.“Nas adversidades,
os portugueses são muito amigos. O que aconteceu foi um azar grande,
não foi um problema económico e hoje são uns e amanhã podem ser outros”,
resumiu.O secretário-geral da Associação
Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol), Manuel Oliveira, recordou
que, nos primeiros dias após a passagem da depressão pelo território,
sentiu-se o “espírito de colaboração do setor”.“Empresas
que não tinham sido afetadas, seja por sorte ou porque não estão aqui
na zona, disponibilizaram-se para ajudar nalgumas operações e a
associação criou uma bolsa de disponibilidades que serviu para acudir a
situações urgentes”, explicou o dirigente da Cefamol.Mais
de metade da produção de moldes do país localiza-se na região da
Marinha Grande e “30 a 40 por cento” da produção de plásticos em
Portugal está na região centro, dois setores fortemente exportadores que
empregam um total de 40 mil pessoas.A
depressão Kristin, a 28 de janeiro, deixou um rasto de destruição na
região centro, com particular impacto na zona de Leiria, Marinha Grande e
Ourém, em casas, empresas, equipamentos públicos e recursos naturais,
com destaque para milhões de árvores derrubadas.Os
impactos severos em dois dos setores económicos mais característicos da
região, moldes e plásticos, só não terão consequências estruturais, com
danos para a balança económica, porque houve solidariedade entre
empresas e a compreensão dos clientes internacionais, referem os
responsáveis.“O setor dos moldes está a
reagir com a sua organização interna. Primeiro foi necessário reparar as
emergências e depois voltar ao trabalho o mais depressa possível, após a
reposição de energia e das comunicações”, afirmou Manuel Oliveira.“Estamos
em crer que vamos manter os nossos clientes”, mas “poderão existir
situações mais sensíveis”, porque “alguns têm os seus próprios
compromissos e os seus interesses têm de ser colocados em consideração”.No
setor dos plásticos, “estas têm sido semanas de contrarrelógio”, disse
Amaro Reis, dando o exemplo da sua própria empresa, com uma centena de
trabalhadores.“Não recorremos ao
‘lay-off’, fizemos limpezas, uns colaboradores pediram férias, até
porque têm problemas nas suas casas, e tem sido possível recuperar a
capacidade de produção, mas ainda há equipamentos por reparar, à espera
de peças suplentes da Itália e da Alemanha”, explicou.Segundo
Amaro Reis, o “setor dos plásticos é muito transversal e a região
centro é o espelho da diversidade de indústrias do setor”, que, “pela
sua tradição, trabalham para a exportação e para organizações que não
são fáceis de lidar”.“Claro que vai haver
clientes que vão invocar os atrasos para pedir indemnizações ou deslocar
os pedidos, mas os empresários têm uma fibra imensa e vão conseguir dar
a volta”, confiou o empresário, que recordou os momentos da passagem da
depressão pela região.“Tempestade é uma
palavra demasiado suave para o que aconteceu. O que se passou foi um
fenómeno da natureza extremo como um furacão ou um tornado”, salientou.Os seguros já estão no terreno e a maioria das indústrias têm algum tipo de proteção jurídica.“São
empresas que já têm alguma estrutura e terão seguros, as peritagens
acabaram por ser rápidas, mas agora o processo de recolha de orçamentos
ou de danos é mais moroso”, porque, numa primeira fase, as organizações
“tiveram de acudir às necessidades prementes”.Sobre
os apoios do Governo, Amaro Reis reconheceu que o executivo é visto
como o “abono de família de toda a gente”, mas a grande preocupação é
evitar o endividamento excessivo das empresas.“O
Governo tem de fazer o que estiver ao seu alcance e tem tentado, com
linhas de apoio e de financiamento”, o que vem “criar dívida nas
empresas, mas é melhor isso do que nada”, disse.Para
o futuro, o dirigente da APIP, um setor que movimenta anualmente 8 mil
milhões de euros, espera que surja uma “componente a fundo perdido para
mitigar o esforço financeiro”, a par de maior “celeridade dos processos”
e um reforço do “apoio da segurança social faz todo o sentido2.Além
disso, Amaro Reis espera que sejam “aproveitados fundos que possam ser
alocados, com um plano para a região, para as empresas terem coragem de
dar um passo em frente e ultrapassar esta crise”.O
setor dos moldes representa perto de 800 milhões de euros anuais, 85
por cento dos quais destinados a exportações e que são essenciais nas
cadeias de produção noutros países, desde indústrias automóvel,
automação ou aeroespacial.As empresas dos
plásticos, moldes e cerâmica (também muito relevante na região),
organizaram-se em torno da Nerlei (Associação Empresarial da Região de
Leiria), para falar a uma única voz e reclamar apoios específicos, como
na energia.“Muita gente teve de usar
geradores” e “pedimos uma redução do imposto sobre o combustível que
fomos obrigados a comprar”, explicou Amaro Reis, que pede também uma
redução das rubricas que constam nas faturas de eletricidade e que não
correspondem à energia especificamente.A
energia é um dos maiores custos de setor, “os encargos de regulação
aumentaram 300 por cento” e as “empresas que estão a operar vão ter de
pagar quando não tiveram o problema de abastecimento que existiu”,
salientou.Por seu turno, o
secretário-geral da Cefamol reconheceu que o “governo foi rápido a
aparecer e tocou em algumas questões que são sensíveis à indústria dos
moldes”, mas esses apoios “provavelmente não serão suficientes” e “há
ainda trabalho a fazer”.Tal como nos
plásticos, há uma “preocupação grande em não acrescentar dívida às
empresas”, mas “até ao final do processo, terá de haver reforço destes
instrumentos ou a criação de alguns novos”, confia Manuel Oliveira.