Indústria inverte "boicote" da lavoura baixando o leite
Agricultura
19 de jun. de 2008, 11:11
— Rui Jorge Cabral
Bel respondeu e hoje o leite UHT meio gordo está mais barato 10 cêntimos. Consumidor agradeceu
A campanha lançada pela Associação Agrícola de São Miguel (AASM) apelando aos consumidores micaelenses para comprarem produtos da Unileite (a indústria que neste momento paga mais ao produtor) em vez dos produtos da Bel e da Insulac, resultou num efeito contrário ao inicialmente desejado. A intenção inicial era forçar a Bel e a Insulac a subirem o preço ao produtor, pelo menos para o nível da Unileite, mas o que aconteceu foi uma descida generalizada do preço do leite vendido consumidor, uma descida na ordem dos 10 cêntimos, desde Abril, altura em que foi lançada a campanha.
Ou seja, a lavoura apelou ao coração do consumidor e a indústria apelou-lhe à algibeira. Em tempo de crise, a segunda saiu a ganhar. “Sabíamos, quando começámos esta luta que as indústrias também tinham formas de responder e esse era um cenário. Estava a produção a ser prejudicada, mas estava também o consumidor a pagar de mais. A indústria optou pela parte mais fácil, que foi baixar o leite ao consumidor e fizeram-no na ordem dos 10 cêntimos”, admite o presidente da AASM, Jorge Rita, para quem o “boicote” então lançado aos produtos da Bel e da Insulac não teve “um efeito directo na produção, mas acabou por ter um efeito directo no consumidor, o que para nós também é fundamental”. Jorge Rita afirma, contudo, que a lavoura micaelense não vai desarmar e que se está perante uma “batalha longa e de muita paciência”, que não tendo surtido efeito numa campanha para não se comprar leite e queijo produzido nas indústrias que menos pagam ao lavrador, poderá contudo ainda resultar noutras frentes, como na queixa feita à Autoridade da Concorrência ou mesmo em Bruxelas, caso a situação não se resolva em Portugal.
Até Abril, com o leite e o queijo cada vez mais caros, os consumidores começavam já a retrair-se e a comprar menos. Contudo, após o abaixamento do preço do litro de leite UHT em cerca de dez cêntimos, a partir de Abril, com várias campanhas de promoção à mistura, as vendas voltaram a subir. O “boicote” foi lançado de uma forma discreta, no sentido de se consumirem produtos da Unileite e não em publicidade negativa contra a Bel e contra a Insulac, que não seria permitida por lei. Mas segundo apurou o Açoriano Oriental junto de uma grande superfície comercial de Ponta Delgada, mal a campanha foi lançada, a Bel começou logo com promoções, coincidentes também com um período de maior oferta nos mercados internacionais, provocando uma forte baixa no preço do leite, que antes andava quase nos 70 cêntimos por litro de leite UHT meio gordo (o mais consumido), preço que dois meses depois baixou para a casa dos 60 cêntimos.
Segundo apurou também o Açoriano Oriental junto da Bel, o “boicote” lançado pela Associação Agrícola de São Miguel aos seus produtos não teve até agora qualquer efeito, nem nas vendas nem na transferência dos seus cerca de 800 produtores em São Miguel para outras indústrias. A Bel entende que a sua marca açoriana “Terra Nostra” tem nome feito no mercado do leite e do queijo e que o consumidor não muda de hábitos só porque há uma campanha para o fazer, além de que o factor preço é sempre muito forte junto do consumidor.
Um dos factores que fez também com que o “boicote” à compra de produtos da Bel e da Insulac não funcionasse em São Miguel foi o pouco peso que este mercado tem nas suas produções - no máximo 5 por cento - produções essas que são sobretudo destinadas ao mercado continental. Quer isso dizer que essas indústrias tinham margem - sobretudo a Bel - para poderem esticar a corda de preços em São Miguel, sem que isso as afectasse financeiramente.
Subida dos factores de produção vai determinar o preço do leite
Para o preço do leite subir à produção, a indústria tem de ter condições para fazer repercutir esse aumento em toda a cadeia, até chegar ao consumidor. Actualmente, a tendência é para preços mais baixos ao consumidor e, como tal, não é de esperar, para já, novas subidas do preço ao produtor. Contudo, este cenário pode de novo mudar. “Se os cereais continuarem a subir e estamos numa fase de recordes no milho e noutros cereais, terá que haver novas mexidas no preço do leite, mas isso só o tempo é que dirá”, admite ao “AO” o responsável da Insulac, Jorge Costa Leite. Em 2007, o preço do leite ao produtor subiu sete vezes em São Miguel, sempre na ordem de 1 cêntimo, ao mesmo tempo que subia também nas prateleiras das superfícies comerciais, devido à grande procura internacional e à especulação nos mercados. Este ano, houve subidas de produção nos principais países europeus e a bolha especulativa esvaziou. Os mercados agora “esperam para ver”.