Índia pode chegar aos 500 mil casos por dia antes do pico, prevê especialista
Covid-19
27 de abr. de 2021, 16:10
— Lusa/AO Online
"A situação atual é muito grave e
a positividade dos testes é de mais de 20%, por isso já há uma grande
transmissão comunitária, que não parece provável que baixe no curto
prazo", disse o professor de Física e Biologia da Universidade Ashoka,
na cidade de Sonipat, a 40 quilómetros da capital, Nova Deli, a braços
com falta de oxigénio nos hospitais."A
maioria dos modelos sugere que os casos vão continuar a aumentar e que o
pico será provavelmente em meados de maio", antecipou, prevendo que o
número de casos "deva chegar aos 400 a 500 mil" por dia.O
professor Gautam Menon trabalha com vários Governos de estados indianos
para fornecer modelos matemáticos de previsão da evolução da doença, de
forma a antecipar o número de infeções de covid-19 e de admissões
hospitalares, e alertou que o número de casos pode estar subavaliado. "Atualmente,
há cerca de 340 mil a 350 mil [casos] diagnosticados por dia, mas a
testagem não parece estar a acompanhar o aumento de infeções, por isso
pode parecer que estão a baixar, mas pode ser apenas por causa dos
testes limitados", afirmou. Com uma
população de 1,3 mil milhões de habitantes, a Índia está a braços com um
novo surto devastador, com recordes de mortes e contágios durante cinco
dias consecutivos, o que já levou vários países a oferecerem ajuda ao
gigante asiático.A segunda vaga atingiu o
país após uma redução drástica das infeções durante vários meses, depois
do pico da primeira vaga, em setembro último, o que levou muitos a
especular sobre a possível imunidade da população, uma hipótese que se
revelou incorreta."Uma possibilidade é que
as pessoas continuaram a ser infetadas [após a primeira vaga], embora a
uma taxa menor, mas a maioria terá sido fora das grandes cidades e não
foram detetadas, porque a maior parte tem uma forma moderada da doença",
disse o professor.A confiança excessiva e
o surgimento de novas estirpes terão contribuído para o aparecimento da
segunda vaga, com consequências mais devastadoras que a primeira,
ameaçando provocar o colapso do sistema de saúde."O
aumento súbito a partir de fevereiro parece estar relacionado com
variantes mais transmissíveis, a par do aumento do contacto social",
porque "ao fim de tantos meses com casos a descer, pensava-se que havia
alguma espécie de proteção da população indiana, e que não teríamos
múltiplas vagas, como noutros países", apontou Gautam Menon.No
país circulam várias estirpes do vírus que provoca a covid-19,
incluindo "a variante indiana", conhecida como B.1.617, "a do Reino
Unido e a variante do Brasil", o que também terá contribuído para a
rápida propagação da doença. Em
Maharashtara, o estado mais afetado, predomina "a variante B.1617
[indiana], que tem duas mutações importantes na proteína ‘spike’ [que
reveste o vírus], E484Q e L452R", explicou o professor, enquanto nos
estados de Deli e Punjab "parece estar em causa a variante do Reino
Unido". Já no estado de Bengal "há uma
nova estirpe, a B.1.618, que parece estar a espalhar-se mais depressa",
destacou, sublinhando no entanto que ainda "não há informação suficiente
sobre sequenciação genómica" para "perceber como a presença destas
estirpes está a aumentar" a propagação da doença. Apesar
de ser "mais transmissível", a chamada variante indiana "não parece ser
mais letal do que as outras estirpes", indicou o especialista,
apontando que o aumento das mortes provocadas pela doença, com recordes
nos últimos dias, está relacionado apenas com o aumento de infetados. "Estamos a ver mais mortes porque [o vírus] se tornou melhor a infetar mais pessoas", explicou. Para
o aumento súbito do número de casos nesta segunda vaga, com mais de 300
mil infeções diárias nos últimos dias (o triplo do máximo registado no
pico da primeira), terão ainda contribuído as eleições em vários estados
e festivais religiosos, depois de o Governo indiano ter permitido
grandes ajuntamentos no festival de Kumbh Mela, com banhos rituais no
rio Ganges. "Estou certo que os comícios
eleitorais e o Kumbh Mela terão ajudado [ao aumento de casos], mas um
pouco mais tarde do início [da segunda vaga]", disse Gautam Menon. Várias
cidades impuseram já restrições e recolher obrigatório para tentar
travar a propagação do vírus, uma medida que os especialistas
recomendam. "Penso que a maior parte dos estados indianos terão de se decidir [pelo confinamento], a certo ponto", defendeu. O
investigador alertou ainda que a nova vaga está a prejudicar a campanha
de vacinação na Índia, com as vacinas a escassear naquele que é o maior
produtor mundial. "Idealmente, devíamos
estar a vacinar 10 milhões de pessoas por dia, se não mais, mas neste
momento estamos a vacinar entre três e quatro milhões", afirmou,
frisando que a inoculação "é a única solução a longo prazo".