Independência “não é uma mera atribuição”, exerce-se pela ação
20 de jul. de 2020, 16:12
— Lusa/AO Online
“Ao longo de 25 anos
aprendi que a independência se exerce pela ação, pela materialização de
uma vocação para o serviço público" e “a independência não é uma mera
atribuição” ou “algo que nos é outorgado”, assinalou.Num
discurso que durou 10 minutos, Mário Centeno referiu a “enorme honra” e
“entusiasmo” com que enfrenta as novas funções, assinalando que “a
independência do Banco de Portugal não se questiona nem se impõe” porque
ao “Banco de Portugal não cabe ter estados de alma acerca da natureza
da sua independência, muito menos ao seu governador”.Falando
na cerimónia de tomada de posse que decorreu no salão nobre do
Ministério das Finanças e à qual assistiram o presidente do Tribunal de
Contas, o seu antecessor no BdP, o presidente da Associação Portuguesa
de Bancos e ainda os presidentes executivos dos principais bancos a
operar no mercado português, entre outros convidados, Mário Centeno
apontou os quatro desafios estratégicos que se colocam à instituição que
agora passa a liderar.Entre esses
objetivos estão assegurar uma supervisão eficiente, exigente e proativa
num mundo em que a transição digital tem alterado a prestação de
serviços financeiros, participar e influenciar a política monetária
europeia num contexto de taxas de juros baixas, definir uma política
macroprudencial que assegure a estabilidade do sistema financeiro e não
permita a acumulação de riscos sistémicos e credibilizar o mecanismo e o
processo de resolução bancária.Numa
intervenção pontuada por referências à independência e depois de ter
sublinhado que a do Banco de Portugal não se questiona, o novo
governador do BdP acentuou que também não cabe ao supervisor do sistema
financeiro “viver fechado” para e sobre “si próprio”, considerando que
“isso não assegura a independência, cria a irrelevância”.“A
capacidade técnica, de intervenção pública e política e o capital
reputacional de toda a instituição, começando pelo governador, são a
melhor garantia de uma instituição sólida, coesa e que viva para a
sociedade”, disse ainda Mário Centeno.O
novo governador, que viu a sua indigitação para o cargo ser alvo de
crítica por parte dos partidos da oposição pelo facto de ter
desempenhado as funções de ministro das Finanças nestes últimos cinco
anos, disse não acreditar “em estratégias de dividir para reinar” e que
sempre geriu as instituições por onde passou “de portas abertas”.Mário
Centeno apontou ainda que o “país precisa, como nunca, de instituições
fortes e renovadas e de lideranças capazes de enfrentar os desafios que
se nos põem com determinação, num contexto europeu e mundial
competitivo”, afirmando ser, por isso, com “enorme entusiasmo, mas
sobretudo com responsabilidade e plena consciência dos desafios futuros”
que encara a liderança do Banco de Portugal.“O
Banco de Portugal tem de ser uma instituição de referência”, referiu
depois de já ter precisado que “o Banco de Portugal é fulcral”, seja
“quando consegue cumprir com sucesso os seus objetivos, o que tantas
vezes não é apercebido pela sociedade, seja quando falha nesse
cumprimento, o que tem sempre enorme impacto e visibilidade”.“O
Banco de Portugal pode e deve contribuir decisivamente para a definição
de políticas nacionais coerentes, de portas abertas, e para uma
estratégia nacional que permita a Portugal vencer os importantes
desafios que se lhe colocam na Europa e no mundo”, precisou ainda Mário
Centeno.Ao longo da sua intervenção, o
novo governador do BdP sublinhou também o seu trajeto académico, no BdP,
como governante e presidente do Eurogrupo, lhe permitiu “adquirir e
amadurecer o conhecimento e o saber, que foram as bases essenciais para
exercer, com sucesso e ponderação, cargos públicos”.Numa
intervenção também de cerca de 10 minutos, o ministro das Finanças,
João Leão, afirmou que a escolha de Mário Centeno “contribuirá para que o
país esteja representado ao mais alto nível” entre os governadores de
bancos centrais da zona euro.“Estou
confiante que Mário Centeno é a pessoa certa para lidera o Banco de
Portugal neste momento exigente”, referiu o ministro, reafirmando o que
já tinha dito na semana passada durante uma audição na Comissão de
Orçamento e Finanças.O anúncio da
aprovação da nomeação de Mário Centeno para governador do BdP, sob
proposta do ministro das Finanças, João Leão, foi feito na passada
quinta-feira, no final da reunião do Conselho de Ministros, em Lisboa.Mário
Centeno sucede a Carlos Costa, cujo segundo mandato terminou em 08 de
julho, depois de 10 anos à frente daquela instituição.A
escolha de Centeno para o cargo foi polémica, pelo facto de este
responsável passar quase diretamente do Ministério das Finanças (onde
foi ministro até junho) para o BdP, quando em 09 de junho foi aprovado
no parlamento, na generalidade, um projeto do PAN que estabelecia um
período de nojo de cinco anos entre o exercício de funções governativas
na área das Finanças e o desempenho do cargo de governador.Contudo,
em 17 de junho, a esquerda parlamentar (PCP e BE, sendo já sabido que
PS era contra) demarcou-se da intenção do PAN de estabelecer esse
período de nojo e, em 25 de junho, o parlamento suspendeu por quatro
semanas a apreciação na especialidade do projeto do PAN até chegar o
parecer pedido ao Banco Central Europeu (BCE). Mário
Centeno nasceu no Algarve em 1966 e licenciou-se em economia no ISEG,
em Lisboa (onde chegou a professor catedrático). Depois de regressar de
Harvard com um doutoramento, em 2000, ingressou no BdP, instituição na
qual foi economista, diretor-adjunto do Departamento de Estudos
Económicos e consultor da administração.Entre novembro de 2015 e junho de 2020 foi ministro das Finanças dos dois governos PS liderados por António Costa. Foi
eleito presidente do Eurogrupo, o grupo de ministros das Finanças da
zona euro, e levou as contas públicas portuguesas ao primeiro saldo
positivo em democracia, mais concretamente desde o ano de 1973.