Incêndios: Fogos de sexta geração serão cada vez mais frequentes

Hoje 16:42 — Lusa

Em declarações à agência Lusa, o especialista em incêndios florestais disse que a designação de sexta geração se deve “à energia que é libertada” pelas chamas, que é cada vez maior.“Os incêndios cada vez estão a libertar mais energia. E quando os incêndios libertam mais do que 10 megawatt por metro já não há capacidade de os suprimir por meio de um ataque direto”, explicou.Segundo o professor emérito da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, nos últimos anos têm-se registado “incêndios que, em alguma parte, na frente, chegaram a ter 20, 30, 40 e até 60 megawatt”.Quando a energia libertada é de 60 ou mais megawatts por metro, o que “tem sido observado sobretudo nos últimos anos”, são chamados de incêndios de sexta geração.“Há períodos do incêndio em que a energia libertada é muito grande. É o que certamente deve estar a acontecer nestes incêndios em França e no centro de Espanha, em que as autoridades dizem que não é possível controlá-los”, afirmou Xavier Viegas.Na sua opinião, também os trágicos incêndios ocorridos em Portugal em 2017 (em junho e em outubro) podem ser classificados de sexta geração porque “tiveram energias na frente de fogo dessa ordem de grandeza”.O investigador referiu que, neste tipo de incêndio, “são criadas condições que modificam o comportamento do fogo”, ou seja, “mesmo que não haja vento, o incêndio gera o seu próprio vento”, alterando o comportamento e tornando-o “bastante difícil de prever e de controlar”.Estes incêndios só podem ser combatidos “eventualmente na cauda e nos flancos”, se houver condições para tal, “mas na frente principal não há condições, nem sequer com meios aéreos pesados se conseguem parar”, acrescentou.Xavier Viegas disse que, “quando muito, consegue-se criando zonas de descontinuidade, com máquinas de rasto, criando uma barreira, admitindo que o fogo não faz projeções e não ultrapassa essas faixas de contenção”.Outra forma de parar estes incêndios poderá ser o contrafogo, mas se houver vento, como tem acontecido com frequência, “também é extremamente arriscado e não é recomendável”.“Por isso é que ouvimos dizer que as autoridades estão a dar prioridade a proteger e retirar as pessoas, para salvaguardar a vida delas”, esclareceu.Investigadores da Universidade de Coimbra já alertaram para o ritmo das alterações climáticas poder ultrapassar os esforços para adaptar a paisagem florestal e preparar a população contra os fogos, pedindo mais investimento na gestão do risco de incêndios.O alerta foi deixado no âmbito das conclusões do relatório "Incêndios florestais em Portugal: Mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar", divulgado no final de junho pela organização ambientalista internacional Greenpeace e elaborado por uma equipa de especialistas, entre os quais Domingos Xavier Viegas.O relatório aponta três grandes causas para Portugal ter sido nas últimas décadas um dos países europeus com mais área ardida: as condições climáticas, a organização da paisagem e a insuficiente gestão florestal.