Imunidade natural reduz risco de doença grave em 88% durante pelo menos 10 meses
Covid-19
17 de fev. de 2023, 08:35
— Lusa/AO Online
Os investigadores
precisam, por outro lado, que as infeções com variantes pré-Omicron
forneceram uma imunidade natural “substancialmente reduzida” contra a
reinfecção com a estirpe Omicron BA.1., em que 10 meses após a primeira
infeção a proteção era apenas de 36%.O
trabalho publicado na revista científica The Lancet constitui a
análise “mais abrangente” feita até agora sobre o nível de proteção e
extensão desta após o contágio por diferentes variantes daquele vírus,
embora não inclua dados sobre a infeção com a variante Omicron XBB e as
suas sublinhagens.Foram revistos e
analisados 65 estudos de 19 países, que comparam “a redução do risco de
covid-19 entre indivíduos não vacinados contra uma reinfecção por
SARS-CoV-2 e indivíduos não vacinados sem infeção anterior até setembro
de 2022”, refere um comunicado de divulgação do estudo.De
acordo com a investigação, o nível e a duração da imunidade “contra
reinfecção, doença sintomática e doença grave” são pelo menos iguais aos
fornecidos por duas doses das vacinas de mRNA (Moderna,
Pfizer-BioNtech) para as estirpes Alpha, Delta e Omicron BA.1.“A
vacinação é o modo mais seguro de conseguir imunidade, enquanto a
obtenção da imunidade natural (através do contágio) deve ser ponderada
face aos riscos de doença grave e morte associados à infeção inicial”,
diz Stephen Lim, do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na
sigla em inglês) na Escola de Medicina da Universidade de Washington,
nos Estados Unidos, o autor principal da análise, citado no comunicado.Caroline
Stein, também do IHME e coautora do estudo, assinala que “as vacinas
continuam a ser importantes para todos” para proteger quer as populações
de alto risco, como os maiores de 60 anos e os que já têm outras
doenças.“Isto também inclui populações que
não foram infetadas anteriormente e grupos não vacinados, bem como os
que foram infetados ou receberam a última dose da vacina há mais de seis
meses”, adianta, defendendo que a imunidade natural e a situação em
relação à vacinação devem ser tidas em conta para “obter uma imagem
completa do perfil de imunidade de um indivíduo”.Desde
janeiro de 2021, foram divulgados vários estudos sobre a eficácia da
infeção pelo SARS-CoV-2 na redução do risco de reinfeção e como a
imunidade vai diminuindo com o tempo, mas nenhum avaliava de forma
abrangente quanto tempo duraria a proteção após a infeção natural contra
diferentes variantes.A análise dos dados
de 21 estudos sobre a infeção com uma variante pré-Omicron “estimou que a
proteção contra a reinfecção de uma variante pré-Omicron foi de cerca
de 85% no primeiro mês e caiu para cerca de 79% após 10 meses”, enquanto
a imunidade natural conseguida com “uma infeção da variante pré-Omicron
contra a reinfeção da variante Omicron BA.1 foi menor (74% num mês) e
diminuiu mais rapidamente para 36% em cerca de 10 meses”.“No
entanto, a análise de cinco estudos relatando doenças graves
(hospitalização e morte) revelou que a proteção (a este nível)
permaneceu universalmente alta durante 10 meses: 90% para as ancestrais
alfa e delta e 88% para a Omicron BA.1”.Outros
seis estudos que avaliaram a proteção especificamente contra
sublinhagens da variante Omicron (BA.2 e BA.4/BA.5) indicavam que a
proteção era bastante menor quando a infeção anterior era de uma
variante pré-Omicron, mas que se mantinha a “um nível mais alto” quando a
infeção anterior se deveu à estirpe Omicron, de acordo com o estudo
divulgado hoje pela Lancet.Segundo outro
dos coautores do estudo, Hasan Nassereldine, do IHME, a menor proteção
das infeções com as estirpes ancestrais em relação à variante Omicron e
às suas sublinhagens reflete as mutações que ocorreram e que lhes
permitem “escapar da imunidade adquirida mais facilmente do que outras
variantes”.“Os dados limitados que temos
sobre a proteção da imunidade natural da variante Omicron e das suas
sublinhagens sublinham a importância de uma avaliação contínua,
principalmente porque se calcula que tenham infetado 46% da população em
todo o mundo entre novembro de 2021 e junho de 2022”, diz o cientista,
adiantando serem também necessárias mais investigações para “avaliar a
imunidade natural de variantes emergentes e analisar a proteção
fornecida por combinações de vacinação e infeção natural”.Os
autores do estudo “Proteção da infeção com SARS-CoV-2 contra a
reinfeção: uma revisão sistemática e meta-análise” observam que o
trabalho tem algumas limitações, dado serem limitados os dados sobre a
variante Omicron BA.1 e as suas sublinhagens, bem como sobre situação em
África.Adiantam que os cálculos sobre a
proteção também podem ter sido influenciados por serem limitados os
dados disponíveis além dos 10 meses após a infeção inicial, bem como por
serem registadas de modo diferente ou incompleto informações, por
exemplo, sobre uma infeção anterior ou internamentos hospitalares.Desde
01 de junho de 2022, estima-se que a pandemia de covid-19 causou 17,2
milhões de mortes (6,88 milhões das quais foram registadas) e 7,63 mil
milhões de infeções e reinfeções, segundo o estudo, que adianta que “uma
grande proporção dessas infeções ocorreu após 14 de novembro de 2022”.“A
imunidade conferida por infeções deve ser ponderada juntamente com a
proteção conseguida com a vacinação na avaliação dos encargos futuros
com a covid-19, fornecendo indicações sobre quando os indivíduos devem
ser vacinados e sobre políticas que tornem a vacinação obrigatória para
trabalhadores ou restrinjam o acesso a locais onde o risco de
transmissão é alto (…), com base no estado imunológico”.A Agência Europeia do Medicamento (EMA na sigla em
inglês) defendeu a vacinação anual contra a covid-19, advertindo que a
doença "representa ainda uma carga significativa" para os sistemas de
saúde na Europa.O outono, “o início da
estação fria”, foi considerado a melhor altura para a administração da
vacina contra a covid-19, coincidindo com a época para a inoculação de
vacinas contra outros vírus respiratórios (como o da gripe).No
final de janeiro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou que o
seu Comité de Emergência dos Regulamentos Internacionais tinha decidido
manter o nível máximo de alerta para a pandemia da covid-19.Embora
o comité tenha reconhecido que a pandemia pode estar a aproximar-se de
um ponto de viragem, decidiu que "não há dúvida" de que o coronavírus
SARS-CoV-2 continuará a ser um agente patogénico permanentemente
estabelecido em seres humanos e animais para o futuro e, por
conseguinte, é criticamente necessária uma ação de saúde pública a longo
prazo, indicou a OMS em comunicado.A
covid-19 é uma doença respiratória infecciosa pandémica causada pelo
coronavírus SARS-CoV-2, um tipo de vírus que foi detetado há três anos
na China, disseminando-se rapidamente pelo mundo, e que assumiu várias
variantes e subvariantes, umas mais contagiosas do que outras.Em
Portugal, a vacinação contra a covid-19 iniciou-se em 27 de dezembro de
2020, tendo, desde então, sido administradas, de forma faseada, doses
primárias e doses de reforço.