Implante elétrico na coluna permite a três paraplégicos voltar a andar
24 de set. de 2018, 18:08
— Lusa/AO online
Segundo
a agência Associated Press, o acontecimento divulgado por duas equipas
de investigadores que trabalham separadamente, ainda não representa uma
cura, uma vez que os pacientes apenas conseguem caminhar com
assistência, seja de um andarilho ou outra qualquer ajuda que lhes
permita manter o equilíbrio. O avanço é que se se desligar o estímulo elétrico, os pacientes voltam a não conseguir mover as pernas de forma voluntária.Numa
sessão de fisioterapia, o paciente de 29 anos Jered Chinnock moveu-se
para trás e para a frente numa distância equivalente a um campo de
futebol. “A
parte de andar ainda não é algo que me permita simplesmente deixar a
cadeira de rodas para trás e ir”, disse Chinnock à AP, acrescentando que
“há, no entanto, esperança de que isso venha a ser possível”. O
trabalho insere-se no objetivo de ajudar pessoas com lesões na coluna
vertebral a recuperar as funções do corpo, e os investigadores afirmam
que apesar de o estímulo apenas ter sido testado num grupo pequeno de
pessoas, é uma abordagem promissora que precisa de mais estudo.Cristina
Sadowsky, especialista em reabilitação do hospital universitário
norte-americano Johns Hopkins, afirmou estar entusiasmada em relação ao
avanço, mas alertou que nem todos os pacientes com lesões semelhantes
vão responder da mesma forma.Lesões
graves na coluna vertebral ‘desligam’ a capacidade de o cérebro dar uma
ordem de movimento aos nervos, que por sua vez a devem ativar nos
músculos.Outras
abordagens para contornar a falta de mobilidade de pessoas paraplégicas
já foram tentadas, como exoesqueletos ou implantar estímulos nos
músculos, que ajudar a mover membros paralisados.Com
esta nova abordagem, os três pacientes estão a dar passos sob o seu
próprio comando, com movimento intencional, referem os artigos hoje
publicados nas revistas científicas Nature Medicine e New England
Journal of Medicine.A
teoria em relação a esta abordagem é a de que os circuitos nervosos sob
o local da lesão estão apenas adormecidos, não mortos, e que aplicar
corrente elétrica pode acordar alguns desses circuitos que, conjugado
com uma reabilitação rigorosa, pode restaurar as ‘ligações enferrujadas’
e, eventualmente, permitir que voltem a receber comandos simples.“A
recuperação pode acontecer se se verificarem as circunstâncias certas”,
referiu a professora da Universidade de Louisville Susan Harkema,
co-autora do estudo publicado pelo New England Journal.“A coluna vertebral pode voltar a fazer coisas, não tão bem como fazia antes, mas pode voltar a funcionar”, acrescentou.Há
quatro anos a equipa de Harkema fez manchetes quando alguns pacientes
implantados com um estimulador da coluna vertebral – originalmente
concebidos para tratar dor – foram capazes de mover os dedos dos pés, as
pernas e pôr-se de pé por breves instantes. Mas não conseguiram andar.Um
dos estudos aponta ainda a necessidade de cautela em relação à
segurança dos pacientes: um deles fraturou a anca num exercício de
reabilitação numa passadeira, ainda que cuidadosamente apoiado.A
nova abordagem vai necessitar de estudos mais aprofundados não apenas
para perceber se pode ajudar outros pacientes, mas também para definir
riscos. E ainda não é claro quanto custa esta terapia, cuja tecnologia
continua a ser desenvolvida pelos investigadores.