Impacto do lixo marinho na fauna é grande e está subestimado diz estudo
21 de abr. de 2026, 12:30
— Nuno Martins Neves
Imagens de animais marinhos com plástico à volta das guelras ou
barbatanas não são incomuns, infelizmente. Apesar do problema ser já do
conhecimento da maioria da população, existem poucos dados
quantitativos. Foi com isso em mente que os investigadores do Instituto
das Ciências Marinhas (OKEANOS) e do Instituto do Mar (IMAR), Yasmina
Rodriguez, Frederic Vandeperre, Hugo Parra, Miguel Machete, Jorge
Fontes, Mónica A. Silva e Christopher K. Pham lançaram mão aos dados
existentes de 17 anos de observações no mar entre os Açores e Portugal
Continental. E as conclusões encontradas apontam para uma pressão
adicional sobre os ecossistemas de mar aberto, o que reforça a
necessidade de maior monitorização do problema.Segundo o estudo
“Emaranhamento em detritos marinhos e os impactos associados na
megafauna ao longo do Oceano Atlântico Nordeste”, publicado no início
do presente mês, foram analisados dados recolhidos entre 2008 e 2024, a
partir de utilizadores do mar (como operadores turísticos, cientistas,
observadores das pescas), e da rede de arrojamento, tendo sido incluídos
apenas os eventos suportados por evidência visual.Um total de 41
casos, onde mais de metade (56%) os detritos eram artes de pesca
abandonadas, perdidas ou descartadas (como cordas, redes, entre outros),
sendo o plástico de uso único (como sacos plásticos) responsável pelos
restantes casos (44%).Ao todo, 10 espécies diferentes de vertebrados
foram afetados pelo lixo marinho: tubarão-azul, peixe-espada,
tartarugas marinhas comum e verde, cagarro, golfinho-roaz, baleias-anã,
de Bryde e sei, e a baleia-de-bico de Sowerby.Amaioria (95%) foi
observado no mar, com apenas 2 casos (5%) arrojados na costa. dos 41
casos, 31 foram na Zona Económica Exclusiva dos Açores: ao redor do
arquipélago, foram encontrados cetáceos, tartarugas marinhas e pássaros
marinhos. Já os peixes pelágicos emaranhados foram observados em alto
mar, enquanto os tubarões foram encontrados tanto em alto mar, como
junto às ilhas açorianas.Os tubarões e as tartarugas marinhas são os grupos mais afetados pelo lixo marinho.Quanto
aos impactos nos animais, 9% (3) morreram devido ao emaranhamento
(provocado por afogamento, devido ao aumento do da resistência gerado
pelo plástico), com 91% a apresentarem lesões externas, das quais 57%
foram consideradas severas, 14% moderadas e 29% ligeiras (17% não
registou qualquer dano, enquanto em 5% dos animais emaranhados não foi
possível avaliar possíveis lesões). Entre as lesões mais comuns estão constrições (46%), feridas ou lacerações (39%), perdas de membros (11%) ou deformações (4%).Perante
este cenário, o estudo entende que o impacto do lixo marinho na
megafauna está subestimado, devido à dificuldade de monitorização, e que
o plástico flutuante está a exercer uma pressão significativa nos
ecossistemas de mar aberto.“Isto é particularmente preocupante
porque a região estudada serve como um habitat crucial para vários
vertebrados marinhos migratórios e residentes, incluindo diversas fases
juvenis”, assinala o estudo.Mas não só: as espécies documentadas no
estudo estão classificadas como ameaçadas, em perigo ou protegidas ao
abrigo de acordos internacionais de conservação e são “intrinsecamente
vulneráveis aos impactos antropogénicos [originados ou causados pela
atividade humana] devido à sua elevada longevidade e baixas taxas de
fecundidade”.Aspetos que levam os investigadores a defenderem a
importância de uma monitorização “cuidadosa e da gestão das pressões
humanas, como as causadas pelo lixo marinho”.O estudo não tem
dúvidas em afirmar que a presença de plástico flutuante “transformou o
oceano aberto num ambiente perigoso”, sendo necessário aprofundar os
efeitos e impactos a longo prazo desta ameaça nas populações de
megafauna marinha.