Igreja portuguesa afirma que fará tudo para apurar verdade sobre abusos
8 de nov. de 2021, 17:24
— Lusa/AO Online
Na
abertura da 201.ª Assembleia Plenária da CEP, que tem a questão dos
abusos no seio da Igreja como tema que suscita as maiores atenções,
sendo dada como certa a criação de um grupo coordenador nacional para
tratar do tema, o também bispo de Setúbal, José Ornelas, disse que o
tema é “desafiador para toda a sociedade” e que a Igreja o toma “como
prioritário”.“É um dos assuntos desta
Assembleia, no propósito de verificar os processos em curso, articular
melhor as instâncias diocesanas e a coordenação nacional, de modo a
oferecer oportunidades seguras e fiáveis no acolhimento de denúncias e
acompanhamento às vítimas de abusos, na clarificação de processos e,
sobretudo, na formação de pessoas”, disse o presidente da Conferência
Episcopal, deixando a garantia: “Faremos tudo para proteger as vítimas,
apurar a verdade histórica e impedir estas situações dramáticas que
destroem pessoas e contradizem o ser e a missão da Igreja”.José
Ornelas aproveitou ainda o momento para citar o Papa Francisco, segundo
o qual “a proteção dos menores é, cada vez mais, concretamente, uma
prioridade ordinária na ação educativa da Igreja, é promoção de um
serviço aberto, fiável e autorizado, em firme contraste com qualquer
forma de dominação, desfiguração da intimidade e silêncio cúmplice”.Como
admitiu o secretário da CEP, padre Manuel Barbosa, a 12 de outubro, a
Igreja Católica em Portugal vai avançar com a constituição de uma
comissão nacional de coordenação das comissões diocesanas de proteção de
menores e adultos vulneráveis.Esta
comissão terá como objetivo definir critérios e procedimentos comuns às
21 comissões diocesanas, bem como prestar-lhes apoio, nomeadamente na
gestão da informação.A criação de um
manual de procedimentos comum a todas as dioceses e organismos da Igreja
perante denúncias de abuso sexual será um dos objetivos do grupo
coordenador a ser criado na Assembleia Plenária do episcopado que hoje
começou e se prolonga até à próxima quinta-feira.No
final da reunião do Conselho Permanente da CEP, a 12 de outubro, o
padre Manuel Barbosa disse que “a Igreja reconhece a gravidade da
situação” dos abusos no seio da Igreja e “continua a tratá-la com toda a
seriedade”.Além da constituição do grupo
coordenador, a Conferência Episcopal, “se julgar conveniente, poderá
tomar outras medidas, sempre no propósito de rejeitar qualquer
encobrimento de casos”.Alguma expectativa
tem sido criada, entretanto, em torno da possibilidade de, à semelhança
do que aconteceu já noutros países, em Portugal vir a ser também
constituída uma comissão independente que investigue a situação dos
abusos no seio da Igreja no país.O bispo
de Leiria-Fátima, cardeal António Marto, já admitiu que “a Igreja está
disposta a olhar e a realizar com determinação todos os esforços
necessários para pôr fim a estes dramas, a esta chaga que a atingiu
profundamente, quer com o cuidado das vítimas, no acolhimento, do apoio
humano, psicológico, espiritual e de reparação, quer atendendo ao
presente numa atitude preventiva, de prevenção, e sem contemplações”.“Não
há contemplações neste campo e todas as ações que tiverem de ser feitas
pelo reconhecimento da verdade deverão ser feitas”, acrescentou António
Marto, em conferência de imprensa no âmbito da peregrinação de 12 e 13
de outubro ao Santuário de Fátima.Abordando
na ocasião a divulgação de um relatório segundo o qual mais de 300 mil
menores terão sido abusados e agredidos em instituições da Igreja
Católica francesa, António Marto evocou as palavras do Papa Francisco -
“a dor, tristeza, a vergonha” - e o “seu apelo a fazer todos os
esforços”, para que “tais dramas não se possam repetir”.Mais
recentemente, em entrevista ao Expresso, foi a vez do presidente da
CEP, José Ornelas, admitir que está a ser seguido “o caminho que está a
fazer a Igreja inteira de tolerância zero para atos deste género”.“Temos
pena de ter de enfrentar coisas destas, mas não temos medo! Pior é não o
fazer, porque isso é traição ao que é ser Igreja”, adiantou o prelado.Além
da questão da “proteção de menores e adultos vulneráveis”, os bispos
portugueses vão debater também, na reunião de Fátima, o “itinerário de
iniciação à vida cristã com as famílias, crianças e adolescentes”, o
sínodo dos bispos que o Papa Francisco abriu em Roma no início de
outubro e a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.Durante
os dias de reunião, haverá ainda um período de formação sobre o Livro
VI do Código de Direito Canónico, sob a orientação de Juan Ignatio
Arrieta, secretário do Conselho Pontifício para a Interpretação dos
Textos LegislativosCom a Constituição
Apostólica "Pascite Gregem Dei", o Papa Francisco reformou o Livro VI do
Código de Direito Canónico, um trabalho de revisão iniciado com Bento
XVI, através do qual “são sancionados novos delitos”.O
novo texto é um instrumento corretivo mais ágil, a ser usado
prontamente para "evitar males mais graves e acalmar as feridas causadas
pela fraqueza humana", segundo o portal de notícias do Vaticano,
Vatican News.O novo texto entrará em vigor a 08 de dezembro deste ano.A
Assembleia Plenária da CEP vai ficar marcada também, na quinta-feira,
às 08h00, pela celebração pelos bispos, na Capelinha das Aparições do
Santuário de Fátima, de uma missa pelas vítimas da pandemia de Covid-19.