Igreja de antigo convento de Vila Franca do Campo com escavações arqueológicas em maio
9 de abr. de 2025, 11:47
— Lusa/AO Online
Segundo
o arqueólogo municipal, Diogo Teixeira Dias, na última semana de março
foi feita uma prospeção por georradar aplicada à arqueologia (espécie de
radiografia ao solo) - técnica utilizada pela primeira vez nos Açores
-, no forte do Tagarete, na Praça Bento de Góis (presume-se que tenha
sido o primitivo centro histórico de Vila Franca do Campo antes do
terramoto de 1522) e também no interior da igreja e terrenos do antigo
convento de Santo André.O trabalho
realizado possibilita “um planeamento mais cirúrgico” das intervenções
arqueológicas a realizar nos próximos cinco anos no concelho, mas o
município vai dar prioridade à igreja do antigo convento, no âmbito de
um protocolo celebrado com a diocese de Angra, que pretende devolver o
templo religioso à comunidade.A
intervenção arqueológica no interior da igreja - classificada como
Imóvel de Interesse Público desde 2008 - será feita em locais que
dependem dos resultados da prospeção geofísica, mas este levantamento
prévio permite “escavar de uma forma mais cirúrgica, eficaz e
eficiente”, de acordo com declarações do responsável à agência Lusa.No
interior do monumento, os investigadores preveem encontrar algumas das
fundações da antiga matriz, que se perdeu com o terramoto do século XVI,
e, sobretudo, “os enterramentos que lá poderão estar e que são um dado
importante” para o estudo da história de Vila Franca do Campo.“Até
ao final desta primeira quinzena de abril prevemos ter já disponíveis
os dados, em relatório, da prospeção geofísica da igreja de Santo André
e, nesse seguimento, prevemos, já a partir de maio, iniciar a
intervenção arqueológica”, disse Diogo Teixeira Dias.Segundo
o arqueólogo municipal, as escavações devem envolver alguns alunos
voluntários e elementos da comunidade “que queiram intervir no
processo”.Na igreja de Santo André a
autarquia vai manter o registo que foi aplicado no forte do Tagarete,
com o espaço acessível aos visitantes durante as prospeções.“Nós
queremos que a escavação seja aberta ao público, que as pessoas possam
entrar, que possam observar o processo e nele participar também, porque
cremos que é a melhor forma de fazer este tipo de intervenções”,
justificou.As escavações serão dirigidas
pelo arqueólogo municipal de Vila Franca do Campo e também envolverão
uma antropóloga forense que está a estagiar na autarquia.A
igreja de Santo André integra o convento com o mesmo nome e a sua
origem remonta à reconstrução da vila após o terramoto de 1522, “que
destruiu grande parte da localidade, incluindo a primitiva igreja matriz
de São Miguel Arcanjo que era, ao que tudo indica, naquele mesmo
local”, adiantou Diogo Teixeira Dias.“Ali
se ergueu uma ermida, dedicada a Santo André, entre 1522 e 1525, seguida
da fundação do convento em 1533, destinado às freiras da Ordem de Santa
Clara, transferidas da Caloura por receio de ataques corsários”,
acrescentou.O conjunto arquitetónico
sofreu várias ampliações nos séculos XVII e XVIII e, em 1832, após a
extinção das ordens religiosas, o convento foi encerrado e integrado na
Fazenda Nacional, sendo mais tarde adquirido e transformado pelo
Visconde do Botelho.No século XX, a igreja foi alvo de novas intervenções, “incluindo a reconstrução da fachada ao estilo neogótico”.O
imóvel está fechado ao público e, em março deste ano, a Câmara de Vila
Franca do Campo e a diocese de Angra (proprietária da igreja) assinaram
um protocolo para realização de um projeto científico e cultural, que
inclui a realização de escavações arqueológicas, análises de
antropologia forense, conservação e restauro e inventariação dos bens
móveis e integrados, para que o espaço seja devolvido à fruição pública.