Hotelaria, agricultura e construção pedem regresso do fluxo de mão-de-obra estrangeira
18 de nov. de 2024, 16:03
— Lusa/AO Online
Portugal
tem “uma falta crónica de mão-de-obra” que “só é compensada pelos
estrangeiros”, afirmou à Lusa o presidente da Confederação dos
Agricultores de Portugal, considerando que o fim das manifestações de
interesse - um recurso jurídico que permitia a regularização a quem
chegasse com visto de turista e começasse a trabalhar - mostrou a falta
que os imigrantes fazem ao tecido económico português. “Nos
últimos meses, assistimos a um reconhecimento desta realidade. Julgo
que hoje todos os partidos reconhecem que a economia portuguesa precisa
de mão-de-obra estrangeira, o que não acontecia há uns meses”, disse
Álvaro Mendonça e Moura.Contudo, “temos
que criar condições no país para acolher dignamente” e é também
necessário “pôr a funcionar os organismos do Estado competentes nesta
matéria”, referiu o antigo embaixador, que destacou a contratação de 50
funcionários para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares, a colocar em
postos de emissão de emigrantes.“O
processo está em curso, isso já está a andar” e “eu compreendo que há
aqui um espaço de meses” até que “as coisas comecem a funcionar”,
afirmou o dirigente que pede também mais “rapidez” à Agência para a
Integração, Migrações e Asilo (AIMA) na gestão dos processos pendentes. O
presidente da CAP elogiou a decisão recente do parlamento em criar “um
regime transitório”, que permite a regularização de quem já estava em
Portugal mas ainda não preenchia todos os requisitos para o pedido de
manifestação de interesse.“Havia pessoas
que estavam em Portugal que estavam a descontar para a segurança social,
em alguns casos estavam até a pagar impostos e depois não conseguiam
regularizar a sua situação”, recorda.No
que diz respeito aos setores da hotelaria e turismo existem “picos de
sazonalidade e de produção”, pelo que, por agora “não há ainda o efeito
direto de terem terminado as manifestações de interesse”, afirmou à Lusa
Rita Siza Vieira, vice-presidente da Associação da Hotelaria de
Portugal (AHP). Contudo, o país vive um
“bloqueio na entrada de quadros”, que pode causar prejuízos graves a
setores de mão-de-obra intensiva e que têm de manter a resposta à
procura dos mercados. “Cerca de 30% dos
nossos trabalhadores são imigrantes, eles estão a trabalhar, estão
enquadrados e estão contextualizados”, mas é necessário “manter o fluxo
de contratação” para responder à procura turística.A
hotelaria tem “necessidades transversais” de mão-de-obra, disse,
comentando a possibilidade de cada setor estabelecer quotas de
contratação, pedida pelo partido Chega. “Esta
é uma necessidade que atinge todos os níveis de funções e de
qualificações”, afirmou a dirigente, que reclamou do Governo a criação
de um modelo de identificação de quadros a partir dos consulados que
assegure “um regime de segurança, mas com rapidez e transparência”, para
dar resposta aos operadores económicos.A
lentidão do sistema público foi evidente no processo de regularização
das manifestações de interesse, com 400 mil casos pendentes, “pessoas
que têm contratos de trabalho, que já estão a descontar para a segurança
social e que têm obviamente todo o direito a ser integrados”. Na
construção, “a escassez de mão-de-obra é o principal constrangimento” e
os inquéritos às empresas indicam a “falta de cerca de 80 mil
profissionais no setor, para atender às necessidades e executar as obras
já previstas e calendarizadas”, afirmou Reis Campos, presidente da
Associação dos Industriais da Construção e Obras Públicas (Aiccopn). Esta
falta de trabalhadores abrange “todos os níveis de qualificação” e a
“mão-de-obra estrangeira tem vindo a tornar-se cada vez mais
indispensável para garantir a execução” das obras, e já representa
“cerca de 23% da força de trabalho”.Atualmente,
com o fim das manifestações de interesse, “só é possível a contratação
de trabalhadores estrangeiros após emissão dos respetivos vistos pelos
postos consulares dos países de origem”, recordou Reis Campos, que
lamentou o “excesso de burocracia, rigidez e morosidade” dos processos. O
“reforço efetivo dos postos consulares, bem como a criação de canais e
pontos focais de contacto no terreno, é fundamental para a captação dos
trabalhadores imigrantes que o setor e o país tanto carece”,
acrescentou.A associação já propôs uma
"via verde empresas" para a simplificação e desburocratização de
obtenção de visto, com a concentração numa única unidade que centralize
todos os serviços necessários do Estado, acrescentou ainda Reis Campos,
salientando que sem a agilização dos processos será impossível executar
as grandes obras públicas previstas, como o novo aeroporto, a terceira
ponte em Lisboa ou a rede de alta velocidade ferroviária.“Consciente
do aumento das dificuldades para recrutar trabalhadores, a Aiccopn já
apresentou ao Governo um conjunto abrangente de propostas destinadas a
promover a captação e a qualificação dos recursos humanos necessários
para atender às necessidades das empresas”, salientou Manuel Reis
Campos.