“Não faz sentido nenhum” deixar morrer a Volta à Ilha
Histórias dos Rallyes
Hoje 11:50
— Rui Jorge Cabral
É um ex-Campeão dos Açores de Ralis e viveu uma época dourada no
automobilismo. “Não faz sentido nenhum deixar morrer a Volta à Ilha”,
afirma Luís Franco, que recorda “as reportagens lindíssimas” que se
faziam sobre o rali açoriano e que eram uma “grande publicidade aos
Açores”, numa Europa onde “há milhões de pessoas que gostam de ver
ralis”. Luís Franco fez ralis num tempo em que a Volta à Ilha era
um rali consolidado no Campeonato Nacional e muito apreciado entre os
pilotos continentais, ao mesmo tempo que já tinha a ambição de fazer
parte do Campeonato da Europa. Nesse tempo, recorda Luís Franco, “havia
um grande entusiasmo, com milhares de pessoas por cima dos muros e por
todo o rali havia gente a ver”.Luís Franco é natural de Ponta
Delgada, tem 83 anos e atualmente está reformado. Durante a sua vida
profissional, começou nos seguros, mas depois foi empresário, tendo-se
dedicado a vários negócios, das embalagens à pecuária e laticínios,
passando por uma Casa de Fados e pela extração de areia do mar para a
construção civil. Em jeito de graça recorda: “Fiz tanta coisa que acho
que acabei por não saber fazer nada bem feito, nem sequer os ralis”!E
por falar em ralis, o gosto pelas corridas vem da juventude de Luís
Franco e já “do tempo em que andei na tropa e gostava de ir ver os
circuitos”. Na altura, recorda Luís Franco, dizia a si próprio:
“qualquer dia tenho um carro”!A oportunidade surgiu quando comprou
um Mini Cooper S e tentou a sua sorte numa prova em São Miguel, ainda
nos primeiros anos dos ralis, no início da década de 1970, em que se
corria por regularidade em todo o percurso do rali e não em provas de
classificação, como agora. Ao seu lado levou ‘Tony’ Baltazar, conhecido
empresário da restauração em Ponta Delgada. E logo ali, apesar da boa
prestação no rali, começaram as peripécias.“Para o fim, eu já não
sabia se haveria de entrar ou não no controlo, porque ele tinha três
relógios e nenhum condizia com o outro”, recorda Luís Franco, que ainda
se ri com esta história. A carreira de Luís Franco nos ralis
prolongou-se por década e meia. Isto apesar da forte oposição da sua
primeira mulher que, recorda, “ficava sempre danada comigo quando eu
entrava em ralis e acabei mesmo por parar durante uns tempos”. O
ponto alto de Luís Franco nos ralis foi o título de Campeão dos Açores
de Ralis, obtido em 1984, ao volante de um Ford Escort RS 1800. Este foi
também o ano em que obteve a sua única vitória à geral, no Rali de
Santa Maria. “Tinha muitos segundos lugares e às tantas já
desconfiava porque é que era tão bom para o segundo lugar e nunca para o
primeiro”, recorda a rir-se. “E já desconfiava um pouco dos relógios”,
afirma. Refira-se que nesse tempo, a cronometragem ainda era feita
manualmente e não de forma eletrónica, como agora, pelo que eram muitas
as polémicas sobre os tempos das classificativas, conforme quem estava
na tomada de tempo era mais a favor do piloto ‘x’ ou ‘y’, parando o
cronómetro quando o piloto ainda vinha longe da tomada de tempo... E
estas polémicas aconteciam também no continente. Não apenas nos Açores. O
Ford Escort RS 1800 com que Luís Franco foi Campeão dos Açores de
Ralis, com a sua cor azul, quase sem patrocínios, tinha sido um antigo
carro de Carlos Torres, conhecido piloto português de ralis nas décadas
de 1970 e 1980. Um bom carro para aquele tempo, mas que “não tinha uma
suspensão apropriada para a cavalagem”, lembra Luís Franco. Com esse
carro, recorda o antigo piloto, “tive um grande desastre nas Sete
Cidades com o Carlos Riley”, irmão do também Campeão dos Açores de
Ralis, Mário Riley. “Demos várias cambalhotas e fomos parar os dois ao
hospital”, lembra Luís Franco.Sobre os seus tempos nos ralis, Luís
Franco recorda ter tido “carros bons, mas sem nunca os ter bem
preparados, nem nunca tive uma assistência capaz”. Além disso, conclui
Luís Franco, “eu quase não treinava, passava uma vez nos troços e já
estava, porque eu não tinha tempo, uma vez que a minha vida era ser
empresário e não ‘rally man’”.