Histórias de medo e sobrevivência quando a rua é o mal menor
Mulheres sem-abrigo
22 de ago. de 2025, 17:04
— Susana Venceslau /Lusa/AO Online
Ser mulher na rua é uma fragilidade
acrescida, confessaram algumas mulheres sem-abrigo com quem a Lusa
falou. À perda de dignidade e autoestima juntam-se violência,
humilhação, medo e a necessidade de estratégias de autoproteção.Maria
(nome fictício), 48 anos, vive há seis meses numa unidade de
acolhimento da Comunidade Vida e Paz, uma das poucas com quartos para
mulheres. Antes disso, passou três anos na rua, depois de recusar voltar
a viver com um companheiro violento, durante a pandemia de covid-19.“Deixei o meu filho com os meus pais. Achei mais seguro do que levá-lo para a rua”, diz.Na
rua, aprendeu a proteger-se: andar com a mochila às costas, dormir cada
noite num sítio diferente, evitar rotinas. Mas nem sempre funcionava.“Um
dia adormeci numa escada, achando que ninguém me encontrava. Acordei
com um homem em cima de mim. Consegui empurrá-lo. Fugi com medo que me
perseguisse”, recorda. Teve a tenda destruída, foi ameaçada com uma faca. “Ser mulher na rua é uma fragilidade e uma dificuldade acrescida”, resume.Margarida
Bolhão, 55 anos, viveu mais de 15 anos na rua. Hoje está acolhida pela
Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), mas lembra-se bem do medo constante de
ser violada.Carregava sempre a mochila às
costas para não ser roubada, usava-a como almofada à noite. “Procurava a
companhia de homens só pela sensação de proteção”. Segundo
Teresa Prata, assistente social da Comunidade Vida e Paz, “as mulheres
estão mais vulneráveis a todos os tipos de violência”. Muitas juntam-se a
grupos ou a companheiros para se protegerem, mesmo em contextos de
dependência emocional ou abuso.Ana (nome
fictício), 36 anos, vive numa tenda debaixo de um viaduto há um ano e
meio. Fugiu de uma relação de 17 anos marcada por agressões. O filho
vive com o pai, a filha com um tio. “Como com os ratos, durmo com os
ratos”, descreve. Nos dias em que está menstruada, lava-se com garrafões
atrás de um muro. “Pensos [higiénicos] nem sempre tenho. Às vezes uso cuecas ou meias”, conta. Quer
voltar a viver com os filhos, mas teme que, se admitir a sua situação,
os filhos sejam institucionalizados. Sem rendimentos, não consegue pagar
um quarto nem procurar trabalho.Luísa
Gomes, 57 anos, foi sem-teto durante 15 anos. Lembra-se da vergonha que
sentia durante o tempo que dormiu na rua e de se sentir exposta perante
as pessoas que passavam por si. Recorda-se também das “hemorragias muito
grandes” na altura da menstruação, que a obrigavam a ir lavar-se num
chafariz.“Cheguei a ir ao supermercado,
com o sangue quase a escorrer-me pelas pernas, roubar um penso
[higiénico] porque eu não tinha”, recorda. Após anos de prostituição,
decidiu mudar de vida ao entregar o quarto filho para adoção. Hoje vive
com apoio da associação CRESCER, no programa Housing First.Cristiana
Merendeiro, neuropsicóloga e coordenadora na CRESCER, diz que “cerca de
30% das pessoas em situação de sem-abrigo são mulheres”, com idades
entre os 40 e 45 anos em média. Mas nota um aumento de jovens com
históricos severos de violência doméstica.“São
mulheres com traumas brutais, com saúde mental fragilizada”, afirma.
Muitas evitam as equipas de rua por proteção, escondendo-se ou só
sentindo segurança se estiverem em casal.Critica
a resposta institucional que, perante mães sem-abrigo, opta pela
separação dos filhos. “Isso é altamente traumático para as crianças e
destrutivo para as famílias”. Maria
Madalena Ramalho, vice-presidente da Cruz Vermelha, confirma que o
número de mulheres em situação de sem-abrigo apoiadas pela instituição
tem crescido. Nos últimos dois anos, o número total de pessoas apoiadas
pela CVP aumentou 126%. “O fenómeno está a
caminhar para a paridade”, diz, apontando causas como a crise
económica, o envelhecimento da população e o aumento das famílias
monoparentais – na maioria compostas por mulheres com filhos.Admite que a situação se agrave com a subida do custo da habitação, não acompanhada pelo aumento dos salários.Segundo
o Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, de
31 de dezembro de 2023, existiam 13.128 pessoas nesta condição, das
quais 4.871 na Área Metropolitana de Lisboa. Um número em crescimento —
no qual as mulheres são cada vez menos exceção.