Hipertensão arterial com realidade mais visível nos Açores

Hoje 11:16 — Filipe Torres

Assinalando o Dia Mundial da Hipertensão, o cardiologista Miguel Pacheco, do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES),  alertou para a necessidade de uma maior consciencialização sobre a hipertensão arterial nos Açores, sublinhando a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da mudança de hábitos de vida.As declarações foram feitas ao Açoriano Oriental durante iniciativas de sensibilização e rastreio realizadas junto à Igreja da Matriz de Ponta Delgada, no âmbito do Mês do Coração, que procuraram reforçar a importância da vigilância da tensão arterial na população.O especialista considera que a doença continua subdiagnosticada e fortemente associada aos estilos de vida, tornando-se uma realidade cada vez mais visível na Região.Miguel Pacheco admite que continuam a faltar dados epidemiológicos consistentes sobre a hipertensão arterial nos Açores, o que dificulta uma análise rigorosa da realidade regional em comparação com o resto do país. Segundo o médico, esta limitação também se verifica a nível nacional, sendo necessário reforçar os estudos sobre fatores de risco e doenças cardiovasculares.Ainda assim, considera que existe uma maior sensibilização da população e dos profissionais de saúde, o que tem contribuído para um aumento do diagnóstico e controlo da doença.O cardiologista sublinha que a hipertensão arterial é, na maioria dos casos, uma doença silenciosa, o que dificulta a sua deteção sem medição regular.“As pessoas têm tendência para dizer: ‘A minha tensão está boa porque me sinto bem’. Isso é completamente falso”, alertou. A única forma eficaz de diagnóstico e acompanhamento é a medição regular da tensão arterial, seja em contexto clínico ou domiciliário.Estilo de vida é o principal fator de riscoMiguel Pacheco aponta os hábitos de vida como principal fator associado à hipertensão arterial, destacando a obesidade, a diabetes, a alimentação inadequada, o consumo excessivo de sal, o sedentarismo e os distúrbios do sono, como a apneia.Embora reconheça a possibilidade de fatores genéticos, considera que o estilo de vida tem um peso determinante na prevalência da doença.Apesar de existir maior conhecimento sobre hábitos saudáveis, o especialista alerta que o principal desafio está na sua aplicação prática no dia a dia. “As pessoas já estão alertadas para aquilo que constitui um estilo de vida saudável. O problema é dar o passo seguinte e mudar efetivamente os hábitos”, afirmou.O cardiologista realça que o consumo excessivo de sal continua a ser uma das preocupações na prevenção da hipertensão arterial. Apesar das medidas europeias e nacionais para reduzir o teor de sal nos alimentos processados, o médico reforça o papel individual na preparação das refeições.Embora não existam dados concretos sobre o aumento da hipertensão nos jovens, o especialista admite que a tendência poderá estar associada ao aumento da obesidade infantil.Os Açores são, segundo os dados mais recentes, a região do país com maior prevalência de obesidade infantil, o que poderá contribuir para um aumento futuro da hipertensão arterial.Complicações graves a longo prazoA hipertensão arterial é uma das principais causas de doenças cardiovasculares graves, incluindo enfartes, insuficiência cardíaca, arritmias, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e insuficiência renal crónica.“É uma doença que pode levar a complicações evitáveis se for diagnosticada e controlada precocemente”, sublinhou.O cardiologista defende que a medição da tensão arterial deve ser feita regularmente por toda a população, independentemente da idade.Iniciativas de rastreio, como as realizadas no Mês do Coração, são consideradas pelo médico como fundamentais para a deteção precoce de casos ainda desconhecidos.As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte a nível mundial, europeu e nacional.Em Portugal, destaca-se a elevada incidência de AVC, frequentemente associada à hipertensão arterial não controlada.“É essencial continuar a informar e sensibilizar a população para a importância de cuidar da sua saúde e mudar hábitos de vida”, concluiu Miguel Pacheco.