Habitação é o principal problema dos refugiados ucranianos em Portugal
Ucrânia/1 ano
7 de fev. de 2023, 10:07
— Lusa/AO Online
“O
primeiro problema é a habitação. É um problema grave. Embora tenham
sido oferecidas inicialmente muitas habitações pelos privados, pelas
câmaras, pelas juntas, percebemos que os privados não podem aguentar
muito tempo ter as pessoas, até por estarmos a enfrentar o aumento dos
preços, da inflação”, disse à agência Lusa o presidente da Associação
dos Ucranianos em Portugal (AUP), Pavlo Sadokha.Parte
dos ucranianos que procuraram refúgio em Portugal após a invasão russa,
a 24 de fevereiro, regressou à Ucrânia desde que no início do verão o
país conseguiu libertar algumas cidades e travar o avanço das tropas
russas. Porém, com a mobilização da Rússia
nos últimos meses, este regresso parou e, apesar de não se verificarem
novos fluxos de refugiados para Portugal no momento, nada pode atestar
que não voltarão a acontecer, reconheceu. “Neste momento, não sentimos
um novo fluxo dos migrantes para Portugal, o que não quer dizer que não
vá acontecer, porque a situação na Ucrânia não é fácil e é possível que
venham novas ondas”, admitiu.Em outubro, a
Rússia reforçou a ofensiva e deu início a novos ataques massivos com
mísseis, que destruíram quase metade do sistema energético da Ucrânia.A
informação que chega à associação, constituída em 2003, é que os
ucranianos no terreno estão preparados para continuar a resistir à
invasão russa, que completa um ano este mês: “Não mostram vontade de
refugiar-se, neste momento, o que não quer dizer que a situação não
possa mudar, consoante o desenvolvimento da guerra na Ucrânia”.Pavlo
Sadokha faz um balanço positivo do processo de integração das primeiras
vagas de ucranianos que chegaram Portugal no último ano, apesar dos
problemas que persistem.O que mais se
destaca é a dificuldade em alugar uma casa. Embora exista um projeto de
apoio ao arrendamento, “não funciona muito bem em todas as freguesias,
em todo o país”, segundo o dirigente associativo.Os
refugiados deparam-se também com a exigência do contrato, fiadores e
pagamento antecipado de rendas. “Esses ucranianos não têm, porque vieram
sem dinheiro e ainda não ganharam para ter alguns fundos para pagarem
sinal”, especificou, dando conta de “sérios problemas” jurídicos e de
mercado.“Já não pedem duas rendas, como é
habitual. Pedem três, quatro e até houve alguns casos, em Coimbra, em
que pediram o adiantamento de seis, sete meses de renda!”, exemplificou
Sadokha, alertando que este é ”um valor que é impossível para
refugiados” e a fonte do principal problema que enfrentam em Portugal.Na hierarquia das dificuldades segue-se, de acordo com a mesma fonte, a demora na atribuição das autorizações de permanência. “É
também o que sentimos ultimamente, nos últimos seis meses, pelo apoio
jurídico e pelos refugiados que nos pedem ajuda. Há processos que
demoram três, quatro meses, e nesses três, quatro meses, as pessoas não
podem nem começar a trabalhar, porque não têm ainda dados, nem ter apoio
do Sistema Nacional de Saúde. É uma questão que nos preocupa”,
sublinhou.Mas há ainda um “terceiro e
grave problema”, na avaliação do presidente da AUP: o estado psicológico
destas pessoas, provocado pelo stress de guerra e pela incerteza de não
saberem se conseguem algum dia voltar ou se terão de refazer a vida
profissional em Portugal. “Isso bloqueia-os”, assegurou. O
bloqueio acaba por ter consequências a nível emocional e social,
interferindo com a aprendizagem do português, apesar da imensa oferta de
aulas existente.“Passou o primeiro choque
de fugirem da Ucrânia e agora estão a enfrentar a realidade da
incerteza do que têm de fazer (…). Vimos que a maioria dos ucranianos,
mesmo aqueles que já têm trabalho, ainda não saíram daquele estado de
incerteza. E até reparamos nisto, por exemplo, na aprendizagem de língua
portuguesa”, contou Pavlo Sadokha em entrevista à Lusa, durante a qual
se manifestou “muito satisfeito” com a posição dos portugueses perante o
conflito.Mesmo com a diminuição da onda
inicial de donativos, os portugueses continuam a mobilizar-se quando há
um agravamento da situação, como foi o caso do ataque ao sistema
energético da Ucrânia, garantiu.“Houve
pessoas que se juntaram para enviar geradores e roupa. Muito agradeço o
apoio dos portugueses. A opinião pública é muito importante para
influenciar a decisão dos políticos. Sem o apoio da Europa, a Ucrânia
não tinha aguentado até agora”, declarou.