"Há populações no interior que estão a ser abandonadas pela banca"
22 de out. de 2024, 17:51
— Lusa/AO Online
"A exclusão bancária está a
aumentar, o nosso estudo de 2022 já apontava nesse sentido e vem
aumentando", disse à Lusa o economista Nuno Rico, da Deco, para quem o
impacto sente-se sobretudo em zonas do interior, onde há populações mais
velhas e com mais dificuldade em usar meios digitais."Esta
banca está a deixar de ser para velhos. Há claramente populações no
interior do país que estão a ser abandonadas pela banca. Isto
agravou-se" desde o estudo feito pela Deco em 2022, acrescentou.O
estudo da Deco, de 2022, considerava que "o peso de uma banca cada vez
mais longe de casa e cada vez mais cara está, sobretudo, aos ombros dos
mais idosos", com o fecho de balcões a ter impacto no interior onde uma
deslocação a uma agência pode implicar dezenas de quilómetros. Então,
dava o exemplo de que um cliente do BPI de Vilar Formoso que tinha de
fazer mais de 72 quilómetros (ida e volta) para ir à agência do seu
banco mais próxima, em Figueira de Castelo Rodrigo, e de alguém de
Barracos cliente do BCP que tinha de fazer 140 quilómetros para ir ao
balcão mais perto, em Reguengos de Monsaraz, e voltar a casa.O
Público noticia hoje, em manchete, que a Caixa Geral de Depósitos (CGD)
"reduz serviços no interior e ilhas" ao transformar dezenas de agências
que até aqui ofereciam todos os serviços (designadamente levantar e
depositar dinheiro ao balcão) em espaços mais pequenos e com menos
serviços.Em 03 de outubro, a Lusa noticiou
um comunicado da Comissão de Trabalhadores do banco em que esta
denunciava aquilo que dizia ser o “incumprimento” da CGD do “dever de
serviço público bancário”.Hoje, em
declarações à Lusa, o presidente da CT da CGD, Jorge Canadelo, disse que
este problema se está a colocar sobretudo em agências do interior de
Portugal continental e das ilhas e que isso é feito pondo em causa a
sustentabilidade da empresa no futuro e sem qualquer "visão crítica" da
tutela, o Governo."O acionista [o Estado]
tem tido rendimento, mas estamos a minar a coesão [do país] e a dar cabo
da sustentabilidade futura [da CGD]. Quando acabar o diferencial das
taxas de juro [principal contribuidor dos lucros do banco] não sabemos
se teremos matéria-prima para gerar mais lucro", afirmou Jorge Canadelo.Sobre
a CGD, o economista da Deco Nuno Rico considera que há "uma agravante"
em o banco deixar de prestar serviços em algumas zonas pois tendo
"capitais públicos teria a obrigação moral de pelo menos não contribuir
para este abandono dos clientes mais idosos".Questionada
pela Lusa, fonte oficial do banco público afirmou que "é completamente
falso que a CGD esteja a reduzir serviços, nomeadamente no interior ou
nas ilhas" e que "só por manifesta má-fé o investimento superior a 70
milhões de euros que a Caixa está a realizar sua extensa rede de
agências pode ser entendido como recuo de serviços, quando o mesmo se
insere num plano de transformação digital que visa servir mais e melhor
os seus clientes onde quer que eles estejam".Segundo
a CGD, a criação de agências de nova geração "não deixa ninguém para
trás e aumenta de forma significativa a sua capacidade de serviço aos
clientes, nomeadamente nas disponibilidades de tesouraria"A
CGD afirma que a CGD não ficará "parada no tempo, agarrada a um passado
que já não existe" e que os planos de transformação visam "garantir o
futuro hoje”.Além da redução de agências e
de serviços bancários no interior, a Deco afirma que mesmo nas cidades
maiores os encerramentos de balcões, os fechos nas horas de almoço e as
limitações nos horários da tesouraria faz com que seja cada vez mais
difícil ir a um balcão e leva mesmo a filas de clientes à porta de
agências. Além disso, afirmou Nuno Rico,
os serviços bancários digitais são gratuitos ou mais baratos numa
primeira fase, mas à medida que se tornam muito usados passam a ser
"onerados de forma significativa".O
encerramento de agências e diminuição de trabalhadores bancários tem
sido, na última década, transversal a toda a Europa e com contestação de
populações e autarcas.Em 2022, em
Espanha, um homem de 78 anos (cirurgião reformado e doente de Parkinson)
fez uma petição a pedir menos Internet e mais atenção humana nas
sucursais bancárias e chegou a conseguir mais de 600 mil assinaturas.Segundo os últimos dados do Banco de Portugal, em 2022, o número de agências bancárias era de 4.626, menos 3.090 do que em 2012.