Há 100 anos, no Faial, mais de 4 mil casas ruíram no sismo de 31 de agosto

Hoje 10:21 — Lusa/AO Online

O sismo ocorreu às 08h42, com o epicentro no canal que separa as ilhas do Faial e do Pico, atingindo uma magnitude estimada entre 5,3 e 5,9 na escala de Richter e uma intensidade máxima de grau X na escala de Mercalli, embora desde abril desse ano se viesse registando uma crise sísmica que acabou por moldar profundamente a história e a arquitetura contemporânea do Faial.“O primeiro evento foi a 5 de abril e já teve um grau de destruição assinalável. E culminou, então, com o violento terramoto de 31 de agosto de 1926, o maior de que se diz que há memória na ilha e que destruiu uma boa parte do património edificado da cidade, não só património religioso, mas também de habitações, principalmente nas freguesias da Conceição, Flamengos, Ribeirinha e Praia do Almoxarife”, recorda Rita Dias, técnica superior do Museu da Horta.A instituição está a assinalar o centenário do sismo com a publicação regular, na sua página na internet, de um acervo fotográfico revelador da destruição provocada pelo terramoto, que danificou 4.138 habitações, além de templos religiosos, como conventos e igrejas, provocando ainda nove mortes e mais de 200 feridos.“Esse grau de destruição, de acordo com os Serviços de Obras Públicas do Distrito da Horta, chegou às 4138 casas e entendia-se que, para a reconstrução da ilha do Faial, seriam necessários à roda de 91 mil contos, para se poder efetivar tudo aquilo que era necessário”, recorda o historiador Carlos Lobão, que fez uma tese de doutoramento a propósito dos principais eventos sísmicos ocorridos na ilha no século passado.A maior parte da população residente no Faial - que na altura tinha cerca de 20 mil pessoas (atualmente são menos de 15 mil) - vivia da economia rural, embora a ilha estivesse também a viver uma era de cosmopolitismo tecnológico e portuário, incentivado pela presença de várias companhias de telecomunicações de cabos submarinos e pelos serviços prestados no porto da Horta, que funcionava como um ponto de reabastecimento de carvão, água e bens para navios de passagem pelo Atlântico.Carlos Lobão lembra que, na altura, o Governo Civil de Manuel Goulart de Medeiros admitiu que “não tinha condições para fazer face à situação”, tal como a Comissão Executiva da Câmara Municipal da Horta, que se encarregara, numa primeira fase, de realojar as famílias sinistradas em tendas provisórias, instaladas em vários pontos da ilha.“Face a esta situação, o Governo do general Carmona vai assumir a responsabilidade de tratar das vítimas e numa primeira dessas fases vai mandar 500 contos para tratar do que era necessário, que vai reforçar posteriormente, com 2.000 contos, para a construção de habitações para os desalojados”, lembra o historiador, acrescentando que, numa segunda fase, chegam à Horta dois navios de guerra (Carvalho Araújo e Adamastor), com alimentos, roupas e tendas de campanha.Embora menos expressiva, em termos de números, a destruição do parque religioso foi também significativa, como explica Rita Dias, lamentando a perda de um vasto património arquitetónico de relevo.“Para terem uma ideia, em termos de património construído e edificado, na cidade da Horta, o Convento e a Igreja do Carmo foram fortemente afetados, o Convento de Santo António acabou por ruir, a Igreja da Conceição também ruiu e o próprio Colégio dos Jesuítas, onde está instalado o Museu da Horta, também sofreu” descreve.O Faial sofreu alguns terramotos ao longo do século XX (1926, 1973 e 1998), que provocaram danos significativos no parque habitacional da ilha, mas, segundo Carlos Lobão, os estragos ocorreram quase sempre nas mesmas zonas, o que levanta dúvidas sobre a segurança das obras entretanto realizadas.“Em 1998, em toda aquela zona da ponte dos Flamengos, todas aquelas casas foram destruídas e tinham sido reconstruidas na sequência do sismo de 1973”, recorda o historiador, questionando: “Será que o processo de reconstrução teve o devido acompanhamento?”.O Museu da Horta vai assinalar os 100 anos do terramoto de 31 de agosto esta segunda-feira, contando com a presença de cerca de uma centena de crianças dos centros de atividades de tempos livres (ATL).“Nós teremos aqui, na Casa Manuel de Arriaga, em colaboração com a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Faial, uma ação de sensibilização e um simulacro. Neste momento já temos cerca de 100 inscritos, de vários pontos da ilha, e iremos sensibilizá-los para algo que faz parte da nossa condição de ilhéus, mas que é muito importante, que é saber como agir em caso de sismo”, realçou Rita Dias.